Tag Archive: humildade

18
maio

Não levante nem sacuda a poeira

Marco Aurélio Brasil

Há certos axiomas bíblicos que eu preciso considerar seriamente de tempos em tempos, sob pena de chegar ao ponto de apenas imitar comportamentos cristãos sendo outra coisa por dentro. E nada é mais trágico que isso. Simeão me ajudou com isso esta semana.

Simeão aparece em Lucas 2 como um “homem justo e temente a Deus… e o Espírito Santo estava sobre ele” (verso 25). Esse Espírito havia revelado que ele não morreria sem ver o Messias e o impeliu a estar no templo no exato dia em que Maria e José levavam Jesus para ser circuncidado. Simeão pegou o menino no colo e falou algumas coisas interessantes, uma das quais eu talvez estivesse entendendo errado esse tempo todo.
Quando eu lia que Simeão havia dito que o menino “é posto para queda e levantamento de muitos” (verso 34) , eu sempre entendia que Simeão estava falando que Jesus derrubaria alguns e levantaria outros, mas a leitura de D. Martyn Lloyd Jones desse texto é diferente. Ele conecta essa passagem à primeira bem aventurança: bem aventurados os humildes de espírito. Se eu quiser ser exaltado por Jesus como Ele mesmo quer que eu seja, primeiro eu preciso cair. A queda e o levantamento, portanto, seriam experiências vividas pelas mesmas pessoas, e não por grupos diferentes.
Se eu esqueço que a humildade é uma condição sine qua non para o reino de Deus, eu posso ter atitudes humildes como hábitos mecânicos treinados, mas ainda assim estar totalmente divorciado do Espírito de Jesus. Ou você nunca encontrou pessoas afetando humildade e sendo monstros altivos e arrogantes por baixo da casca? Ou você acha que não corre o risco de ser essa pessoa?
Para ser melhor do que sou, preciso reconhecer que nada sou e, lendo a Palavra, reafirmar essa consciência regularmente. Obrigado, Simeão, obrigado Mr. Jones.

04
out

Precisamos falar sobre a vaidade no meio cristão

Marco Aurélio Brasil

Recentemente circulou pela minha timeline algumas vezes um texto intitulado “Precisamos falar sobre a vaidade no meio acadêmico”. Não li porque não integro o tal meio acadêmico, mas aproveito o gancho porque o meio cristão eu integro, e sei por experiência própria que o assunto é tão ou mais pertinente cá como lá.

No último mês minha igreja me cedeu o púlpito e sei bem o tipo de comentário que eu esperava em meu íntimo receber ao final da mensagem. Sei bem aquele sentimento insidioso que me assaltava na hora de preparar a mensagem: a vontade de primeiro “parecer inteligente” e só depois, se desse, transmitir o recado certo. Sei bem a bipolaridade que me faz irascível com minha família imediatamente após haver sido usado por Deus. E aquele ciúme quando é outro que está falando, a quantidade de vezes que me ocorre algo como “bah, eu faria melhor!”, o despeito quando não sou eu o chamado ou quando o texto não é lido. Conheço a tentação e desconfio que não é só comigo.aai

Na última semana encontrei Tiago Arrais em uma festa. O cara é um dos primeiros casos em nosso meio de algo parecido com um popstar. Famoso, lota teatros por onde vai, dialoga com e transita entre gente de muito mais nichos além do espaço restrito de nossa denominação Adventista. Imagino a tentação em proporções muito mais explosivas para ele do que para mim. Mas o cara que conheci não parecia nada disso. Simpático, simples, fazendo questão de ouvir, recebendo nossa pequena tietagem com humildade.

O segredo para uma atitude correta, no caso dele, além da óbvia comunhão com Deus, parece estar na base teórica que veio antes da fama e que transparece em letras de músicas que falam coisas como “me esvazie de mim e deste mundo/ e que meu nome morra com meu corpo/ e que o de Cristo permaneça em tudo”.

É a teoria que deflui da simples constatação do contraste entre tudo o que somos e podemos ser com tudo o que Cristo na cruz é. É a constatação que faz Paulo afirmar que temos um tesouro guardado em vasos de barro (II Corintios 4:7).

Precisamos falar sobre a vaidade no meio cristão porque ela é real e porque o tesouro vale muito e porque o vaso é sempre barro, barro ordinário. Aquele insight não é meu. Aquele talento não é razão para me achar de algum modo superior. Aquele carisma que eu lutei para desenvolver é lixo se não for para honra e glória de Jesus Cristo. Aquele espírito de desprendimento e serviço são trapos sujos se não apontarem ao Salvador. Pretender me vestir com eles é a pior idiotice que eu poderia cometer.

Oremos por todos que entram sob o holofote de alguma forma. Oremos para que venham mais pessoas que possam, com a atitude certa, entrar sob os holofotes (Lucas 10:2). E oremos para que também nós desejemos honestamente que o nosso nome morra com nosso corpo, se for para glória de Quem realmente a merece. Amém.

 

06
set

A jornada do herói

Marco Aurélio Brasil

Se Joseph Campbell, o famoso estudioso dos mitos, está certo, poucas histórias foram escritas. A maior parte delas são versões de uma mesma história. Uma delas é o que ele chama de “a jornada do herói”. O cara recebe um chamado para uma aventura, ele tem fortes razões para não aceitar, ele recebe uma ajuda para aceitar, ele passa por uma situação de prova muito grande, ele começa a ser treinado por um mentor, etc. Star Wars e Matrix são versões típicas da jornada do herói.

O fato de essa mesma linha narrativa alcançar os corações de tanta gente é explicado pelo psicanalista Carl Jung com a ideia do inconsciente coletivo. Seriam arquétipos de uma história gravada de alguma forma no nosso DNA e por isso as mesmas histórias encantam gregos e troianos, árabes e nórdicos, russos e africanos.
heros journey
A pergunta que me faço é: se isso está gravado em nosso inconsciente, estaria gravado em versões diferentes de quem você ou eu deveríamos ser na jornada do herói? Ou seja, pode ser que no meu inconsciente esteja gravado que nessa jornada eu deveria ser o amigo que ajuda o herói a superar os traumas, ao passo que você sente que seu papel é ser o mentor? Não, é claro que não. Nós todos nos sentimos talhados para ser o herói. Até aqueles caras cansados e adeptos da inércia e do imobilismo e do conforto-acima-de-tudo têm seus momentos de delírio com a assunção do papel de herói. Alguém está nos enganando sobre quem nós somos destinados a ser.
Os irmãos Arrais cantam uma música interessante sobre a negação desse paradigma. Ela diz coisas como “eu quis morrer na batalha, lutar pelo Reino até o fim/mas fui chamado a cantar das batalhas e guerras que nunca vi”. É a história da maturidade de quem chegou à conclusão de que seu papel na jornada do herói é outra, não é o papel do herói.
Segundo Harry Verploegh, nossa vocação real, nossa missão nesta vida, é aprender a orar. Não vencer as batalhas como um herói, mas aprender a pedir a ajuda do Herói arquetípico.“Queremos fazer algo importante para Deus, ser alguém importante para ele. Queremos edificar, mobilizar, mostrar a nossa força e exercer a nossa influência. A oração parece uma coisa tão pequena a fazer – quase absolutamente nada de fato. Entretanto, não foi isso o que Jesus disse. Para ele, a oração é tudo. É uma obrigação, assim como um privilégio; um direito, assim como uma responsabilidade. Nós usamos a oração como último recurso, ela dever ser nossa primeira linha de defesa. Oramos quando não há mais nada a fazer; para Jesus, devemos orar antes de fazer qualquer outra coisa.”
 
A nossa jornada começa pela dolorosa negativa do papel de protagonistas da história. Começa pela humildade de quem se sabe pó ambulante, ex-pó fadado a voltar ao pó. “Me reduziria ao pó de onde vim”, na música dos Arrais. O passo seguinte é esse arranjo transitório de células vivas conectar-se ao que é Eterno para nEle descobrir uma vocação completamente nova, provavelmente absolutamente diferente daquela que ambicionávamos outrora. No tempo dEle. Do jeito dEle. Essa é nossa real jornada, a única que vale a pena ser trilhada.
Feliz sábado, @migos!
Marco Aurelio Brasil, 02/09/16

11
ago

Na praia

Marco Aurélio Brasil

O sol estava nascendo, tingindo de rosa a superfície do mar de Tiberíades. Ouvia-se apenas a água tranquila acariciando a margem, e o crepitar da fogueira que Cristo havia acendido. Ao redor dela, eles comiam em silêncio, evitando olhar o Mestre ressurreto, que agora mais que nunca inspirava-lhes uma profunda reverência.

– Pedro, amas-me? – Ele corta o silêncio.

Tantas vezes quantas Pedro O negou, foram as oportunidades que Ele lhe deu de, agora, quando começava a finalmente compreender a missão e a natureza do reino de Jesus, dizer que O amava. pregação discipulado

– Pedro, amas-me?

A cada resposta afirmativa, Jesus respondia:

– Apascenta as minhas ovelhas.

Até alguns dias atrás ele esperava ouvir de Jesus algo como: “sobe aqui e sê meu governador sobre Jerusalém”. Com isso é que sonhava enquanto dormia ao relento nos campos que cruzava com Jesus nos últimos três anos e meio. Ele fechava os olhos e saboreava a distinção que haveria de ter, as vestes pomposas que haveria de usar
e que eram parecidas com aquelas, dos príncipes que ele só via de longe, lá no templo de Jerusalém. Divertia-se imaginando cenas em que os que agora o humilhavam e pisavam, desprezando-o como pescador rude que era, tributariam a ele honra e pompa. No entanto, é “apascenta minhas ovelhas” o tipo de sonho que Jesus alimentava e o que Pedro acaba ouvindo.

Pouca gente entende que nossa missão nessa vida é ser sal e luz do mundo, é influenciar pessoas para o bem, para cima. Ficamos sempre atentos ao que podemos receber dos outros ou no que eles nos poderão ser úteis, e no entanto, quando “cai a ficha”, quando finalmente vislumbramos a enormidade do amor de Jesus e passamos a amá-lO também, o que dEle ouvimos é: vá ser um pescador de homens; vá apascentar ovelhas; vá ser a diferença na vida desses que batem a cabeça sem Me enxergar, desses que andam desgarrados como ovelha que não têm pastor!

Existem algumas coisas importantes neste mundo, mas nadica de nada que se compare a pessoas. Elas é que são realmente importantes. Fico lembrando do meu contato com os outros e tenho dificuldades para identificar essa escala de valores colocada na perspectiva exata. Sempre tem alguma coisa na frente, algum interesse que, no frigir dos ovos, acaba sendo mesquinharia.

É então que lembro, e volto em pensamento a uma praia que não conheço, onde as chamas bruxuleantes do fogo iluminam a face do meu Salvador. E Ele me pergunta:

– Marco, amas-Me?

Em seguida, abro os olhos e caminho.

17
nov

no rodapé

Marco Aurélio Brasil

Quero acreditar que não era só pra parecer espirituoso que eu costumava dizer que não fazia questão de uma casa com vista para o mar de vidro, no Céu, uma casa com vista para o muro serviria. Fosse qual fosse a intenção, o simples fato de a ideia me ocorrer já representava uma evolução no pensamento, já que por tanto tempo eu me digladiei com sonhos de ser o protagonista da história.

O tipo de protagonista com que eu sonhava ser mudou, claro. Já contei parte dessa história aqui. Mas mesmo quando comecei a admirar como heróis personagens na Bíblia, era em José, Daniel e Paulo que colocava meu rosto nos delírios de futuros possíveis. Os protagonistas. Os sujeitos que, segundo nossa ótica, fazem jus a um triplex com vista para o mar de vidro. Gente que, transportada para o aqui e agora, seria capaz de pregar para multidões como um Bullón ou alcançar a estatura moral de uma madre Teresa de Calcutá.
Eu sou coadjuvante
Não há problemas em eleger grandes servos de Deus como fonte de inspiração, ao contrário, mas há no evangelho um forte contingente de esvaziamento da necessidade por holofotes. Esvaziamento é a palavra, Paulo a usa para descrever Jesus, capaz de se esvaziar para vir morrer num lugar indigno. Para nos convidar a encontrar algum lugar no qual morrer também. Não é conformismo ou mediocridade, portanto, ver que seus heróis evoluem para caras como… como Demétrio.
Manja Demétrio? Na terceira epístola de João ele está falando a um tal de Gaio. Ele reclama de um certo Diótrefes, que na igreja “gosta de ter a primazia” e usa essa primazia para manipular e afastar pessoas. Na sequência João conclama Gaio a imitar o bem e é nesse ponto que aparece nosso amigo Demétrio: ‘”De Demétrio, porém, todos, e até a própria verdade, dão testemunho” (12). Pronto. Esta é toda referência feita a Demétrio na Bíblia.
Ele é uma nota de rodapé na Bíblia, mas que nota de rodapé!
Eu não preciso ser o maior pregador. Eu não preciso ser o escritor mais lido, fazer os textos com maior número de likes, alcançar o maior número de seguidores. Se Deus quiser que assim seja, bem, mas se eu permanecer em Cristo de uma forma que afogue nEle meus delírios de grandeza todos, minha necessidade de construir um nome e uma reputação para mim, minhas ambições não santificadas todas… Aí eu terei respondido adequadamente à graça que já me salvou.
Traduzindo: talvez eu só precise ser grande e protagonista aqui em casa para ser uma nota de rodapé no reino. Esta é a grandeza que vou perseguir.

17
set

Analgésico

Marco Aurélio Brasil

Na tardinha daquela 5ª feira Jesus surpreendeu seus discípulos de um jeito que eles ainda não haviam visto. Gosto das intervenções de Dwight Nelson no texto: “Ele foi até Simão Pedro que lhe disse: `Senhor, Tu [enfático no grego] me lavas os pés a mim? Respondeu-lhe Jesus: O que Eu [enfático no grego] faço não o sabes agora; compreendê-lo-ás depois. Disse Pedro: Nunca me lavarás os pés [negativa dupla no grego, para expressar o sonoro protesto de Pedro: não lavarás não!]. Respondeu-lhe Jesus: Se Eu não te lavar, não tens parte comigo”. Depois de terminado de lavar os pés, Jesus assentou-se e perguntou aos discípulos, ainda atônitos e desconcertados: “Compreendeis o que vos fiz?”

O orgulho é aquela coisa horrível nos outros e que não vemos em nós mesmos, aquela coisa que destrói nossas chances de salvação porque nos convence de que não precisamos de salvação nenhuma. Jesus disse que precisamos, sim, de salvação, e que por isso deveríamos seguir um outro caminho. Deveríamos servir. Deveríamos nos humilhar.

Para C.S. Lewis, o fato de haver expoentes cristãos que no fundo são bem orgulhosos serve de alerta. “Infelizmente“, escreve ele, “elas [aquelas pessoas] adoram um Deus imaginário. Na teoria, admitem que não são nada comparadas a esse Deus fantasma, mas na prática passam o tempo todo a imaginar o quanto ele as aprova e as tem em melhor conta que ao resto dos comuns mortais”. Isso acontece porque no fundo “o prazer do orgulho não está em se ter algo, mas somente em se ter mais que a pessoa ao lado”.

Ser humilhado, contudo, passar vergonha na frente de outras pessoas, dói, não é mesmo? Veja que Nelson aponta para a cena do lava pés como um poderoso analgésico para essa dor: “se eu aceitar o que for que me torne humilde ou me rebaixe, se eu expressar gratidão a Deus por essa humilhação – altera-se o paradigma normal e carnal do orgulho na minha mente. E quando isso acontece, a dor dessa humilhação literalmente se dissipa”.

Isso soa estranho porque na verdade não compreendemos o que Jesus fez e nem o que significa “Se eu não te lavar, não tens parte comigo”. É que, para ter parte com Jesus, é preciso deixar que Ele o sirva. É preciso consentir em que Ele se abaixe, pegue seus pés imundos e mexa neles. É preciso deixar que Ele mude as coisas de lugar dentro do nosso coração. É preciso sentir o quão profundo é o impacto da atitude dEle para notar o quanto este mundo – e nós mesmos – precisamos desesperadamente seguir Seu exemplo , deixar nosso orgulho escorrer pelo ralo e olhar cada “semelhante seu que venha prová-lo ou exasperá-lo como um instrumento de graça” (como disse Andrew Murray, citado por Nelson).

03
mar

O teste do discipulado, questão 2

Marco Aurélio Brasil

No canto escuro do ringue, nós temos este oponente: “Subirei até o céu e me sentarei no meu trono, acima das estrelas de Deus. Reinarei lá longe, no Norte, no monte onde os deuses se reúnem. Subirei acima das nuvens mais altas e serei como o Deus Altíssimo” (Isaías 14:13 e 14).

No corner oposto, este aqui: “Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar que Cristo Jesus tinha: Ele tinha a natureza de Deus, mas não tentou ficar igual a Deus. Pelo contrário, ele abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo, tornando-se assim igual aos seres humanos. E, vivendo a vida comum de um ser humano, ele foi humilde e obedeceu a Deus até a morte — morte de cruz (Filipenses 2:5-8).

O absurdo contraste entre Jesus e Satanás é extremamente pedagógico a respeito dos dois paradigmas que se apresentam como opção para mim e para você.

lava pésCraig Groeschel, dirigindo-se a uma plateia com milhares de pastores e líderes de igrejas, afirmou algo mais ou menos assim: “Tudo depende do que você quer. Se o que você quer é ser melhor do que os outros, então os outros são os seus inimigos e você vai agir de modo a diminui-los deliberadamente. Se o que você quer é ganhar uma reputação, escrever o seu nome na História, ficar para a posteridade… então os outros são seus adversários (porque a História não tem espaço pra muita gente…) e você vai fazer coisas que engrandeçam o seu nome. Agora, se o que você quer é servir, então os outros são cooperadores do Reino e mais do que o seu nome, o que será exaltado no seu ministério é o nome de Cristo Jesus”.

Porque esse é o efeito de “esvaziar-se”, “abrir mão” de suas prerrogativas. “Por isso Deus deu a Jesus a mais alta honra e pôs nele o nome que é o mais importante de todos os nomes, para que, em homenagem ao nome de Jesus, todas as criaturas no céu, na terra e no mundo dos mortos, caiam de joelhos” (Filipenses 2:9 e 10). Porque se esvaziou, Jesus foi honrado. Mas Ele não se esvaziou para ser honrado, isso Ele já era antes de Se esvaziar. Ele se diminuiu para servir e para salvar!

Você é capaz de cantar com os Arrais: “Torne meu sofrimento em testemunho/Me esvazie de mim e deste mundo/E que o meu nome morra com meu corpo/ e que o de Cristo permaneça em tudo”? (canção “Oração”)

Ou isso ainda lhe parece radical demais e você fica desconfortável com essa perspectiva?

É natural que fique. Mas o grau de energia com o qual você persegue o aplauso, a admiração e o respeito que você merece são um ótimo termômetro do quão de perto você tem seguido a Jesus Cristo.

Se você é discípulo dEle, se está tentando seguir Suas pegadas e imitar Seu exemplo, lembre-se: Jesus é do tipo que Se rebaixa. Do tipo que Se esvazia. Do tipo que abre mão. Do tipo que Se curva e não esperneia se, para levantar quem está caído, Ele precisa ser como um caído também.

Porque a humildade é a segunda característica do teste do discipulado.

03
fev

Que terminem os jogos

Marco Aurélio Brasil

Eu sempre fui e continuo sendo apaixonado por jogos. Uma fatia relativamente grande de minha infância foi passada à frente de um tabuleiro de War, Detetive, Scotland Yard, Leilão de Arte, Combate, Interpol ou Banco Imobiliário e ainda hoje não rejeito jogar Colonizadores de Catan com meus meninos ou algum jogo inocente de baralho nos momentos de folga. Ainda assim, suspeito que a dinâmica dos jogos transportada para as outras áreas da vida seja responsável por algumas de nossas grandes mazelas.

A dinâmica dos jogos é simples: eu quero ganhar, e para conseguir isso, vou ter que fazer você perder. É uma questão de determinar quem é superior.

Não acredito que os jogos ensinem esse desejo a ninguém, a dinâmica dos jogos aparece muito antes do primeiro jogo. Aparece ali próxima dos dois anos de idade e você pode encontrá-la na criança pequena que chama todo brinquedo de “meu” (sobretudo na presença de outra ou outras crianças) ou que faz questão de falar para as outras crianças que alguma coisa sua (o pai, o carro, a casa, etc) é “mais grande”.

victorieA dinâmica dos jogos se revela cedo e não sai de cena jamais. Está na mulher que quer que seu sapato novo seja notado, que quer ser a mais magra da festa, que se esforça pra que sua sobremesa seja a mais elogiada do almoço de família. Está no homem que estaciona duas quadras antes da igreja onde vai acontecer aquele casamento porque sabe que seu carro não é nada impressionante, que posta fotos no Facebook com ar blasé em algum paraíso tropical como se aquilo fosse sua rotina e que puxa os tapetes necessários para conseguir uma promoção e assim poder ostentar um relógio melhor. Melhor do que os dos outros, claro. Está na necessidade de “fazer um nome”, de ser desejado e admirado.

A dinâmica dos jogos está em absolutamente todo canto. Na disputa eleitoral, na queda de braço por poder dentro da família, da igreja, da empresa ou do clubinho de escoteiros. Está numa conversa aparentemente pueril entre amigos (quem tem a história MAIS engraçada? quem sabe MAIS de economia ou política? quem tem a informação privilegiada que NINGUÈM mais tem? quem tem o filho mais lindo cute-cute ou mais obediente?) Está na creche e no asilo. É onipresente. É ela que nos faz amar a história de Davi e Golias e coçar a cabeça desconfiados de histórias como a de Jó, João Batista e Tiago.

É ela que nos faz amar a história de Davi e Golias e coçar a cabeça com histórias como a de Jó, João Batista e Tiago.

Nosso apego à dinâmica dos jogos revela a quem pertencemos. Revela quem manda nessa bagaça. Falando de Satanás, a Bíblia diz: “E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono…” (Isaías 14:13). Pura dinâmica dos jogos. Em contraste (e que contraste!), Cristo “tinha a natureza de Deus, mas não tentou ficar igual a Deus. elo contrário, ele abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo, tornando-se assim igual aos seres humanos. E, vivendo a vida comum de um ser humano,ele foi humilde e obedeceu a Deus até a morte — morte de cruz” (Efésios 2:6-8 NTLH).

O exemplo eloquente de Jesus mostra que todos estamos mesmo disputando um jogo, um jogo desesperado, de vida ou morte. Mas o oponente não são os outros, somos nós mesmos. O ego é o inimigo a ser batido, pisado e surrado. É preciso perder para ganhar.

Cristo está convidando a gente para brincar de um jogo totalmente diferente hoje. O jogo do “esvaziar-se”. Quem quer brincar põe o dedo aqui!

(imagem: Mathieu Nain: Allegórie de la Victorie)

14
ago

Como um de nós

Gelson de Almeida Jr.

Jens Stoltenberg, primeiro-ministro norueguês, que fará campanha para reeleição no próximo mês, colocou seus óculos escuros, disfarçou-se de motorista de táxi e percorreu as ruas do centro de Oslo para ouvir a opinião popular acerca de seu governo. Nem todos o reconheceram. Segundo ele, esta seria uma boa estratégia para estar no meio do povo e ouvir sua opinião sincera.

Anos atrás o Rei do Universo fez algo parecido. Deixou o trono celeste e veio habitar entre nós. Enquanto Stoltenberg queria apenas ouvir a opinião dos eleitores, Cristo, não que precisasse, veio para viver nossa realidade, em sua forma mais vil, como um servo, e sofreu a morte mais abjeta possível, a morte na cruz (Filipenses 2:6-8). Stoltenberg fez o que fez para conseguir votos, já Cristo desejava vivenciar cada experiência sua e minha. Não existe dor, sofrimento, pesar ou angústia que Ele não tenha passado e em grau muito mais elevado. Por esta razão Ele é mais que habilitado e capaz para ser nosso intercessor junto ao Pai (Hebreus 4:15).

Antes de se sentir triste, abandonado, desamparado, em segundo plano ou achar que tudo conspira contra você, ou ainda, que é o indivíduo mais “azarado” do mundo, lembre-se que o Rei do Universo conhece tudo por experiência própria e trabalha incessantemente por você. Não desanime, olhe para cima, Ele está lá, neste exato instante olhando para você.