Tag Archive: Graça

23
jan

O que a distância faz…

Marco Aurélio Brasil

Aquilo não lhe parecia vida. A vida de verdade parecia estar sempre distante. E uma coisa se interpunha entre ele e a vida: o fato de o pai ainda respirar. Como irmão mais novo, ele teria direito a um terço da herança de seu pai, mas pedir que ela lhe fosse transmitida estando ele ainda vivo era o mesmo que dizer “eu preferiria que você estivesse morto!” A atitude do pai é sempre surpreendente. Em lugar de dar aquilo que o filho merece, ele respeita sua liberdade; a liberdade de acalentar o desejo de que ele próprio estivesse morto, inclusive.

O filho mais novo cuspiu no rosto de seu pai. Sua atitude foi ofensiva, desrespeitosa, típica de quem já não liga a mínima para o relacionamento com o pai ou o que as pessoas daquela terra vão pensar dele, típica de quem vai com a firme intenção de jamais voltar. Mas ele volta. Humilhado, maltrapilho. Em seus farrapos e havendo sofrido a fome, aquele rapaz já nem se parece mais filho daquele homem. Ele cheira diferente. Ele tem um sotaque diferente. Ele exala uma ética distinta da do pai. Toda aquela figura ostenta uma escala de valores que não se encaixa à do pai. Ainda assim, o pai segue surpreendendo. Ele puxa as vestes para cima desnudando suas pernas em público para conseguir correr. E ele corre na direção do rapaz. Encurtar o caminho, apressar o beijo e o abraço, apertar firme aquela figura para todos os demais repugnante, tudo isso era mais importante do que seu status de senhor de terras, do que o respeito ou o que as pessoas podiam pensar dele.
Ele interrompe o discurso ensaiado do rapaz. Não quer perder tempo com isso. Dá ordens para uma festa. Manda vestirem-no com a melhor roupa (ou seja, a sua!). E há uma razão para isso: Porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado (Lucas 15:24).
A palavra chave dessa frase é “meu”. Desfigurado, degradado, voluntariamente distanciado de tudo o que o pai é e representa, ainda assim ele segue sendo dele. O que o pai sente pelo filho independe de suas escolhas lamentáveis.
O filho é você. Não importa o que passou. Não importa os muitos e muitos quilômetros que você colocou entre si e o pai em busca daquilo que lhe parecia vida. Não importa nem mesmo se você não se sente tão longe quanto o filho da parábola, acalentando a ideia boba de que refazer o caminho até o pai será mais fácil já que não está propriamente jogado aos porcos, e com isso postergando a volta ano após ano.
Você é dele. Você é dele.

17
jan

Os Fins Justificam os Meios

Gelson de Almeida Jr.

Esse paradigma, muito utilizado por N. Maquiavel em sua obra “O Príncipe”, foi utilizado por um conhecido cantor sertanejo, no último domingo (14/01) ao parar o carro às margens de uma rodovia, em Goiás, e pegar algumas espigas de milho de uma plantação. “Gente, eu num guentei não. Deus perdoa nóis (sic). Achei uma plantação de milho aqui, nóis vamo roubar uns milhos (sic)” diz ele, no vídeo postado em sua rede social. Após pegar várias espigas ele diz que não podia pegar muito, pois, sendo apenas para consumo, Deus perdoaria seu ato.

Longe de mim atacar ou acusar quem quer que seja, desejo apenas fazer uma reflexão sobre como procuramos justificar e desculpar atitudes erradas. Tudo começou com Eva, que pegou e provou do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, justificando que queria ser igual a Deus. Para não perder a mulher Adão comeu do fruto, daí em diante o que se vê é toda a sorte de desculpas para justificar o erro.

O hino “Graça” https://www.youtube.com/watch?v=NT-WLZrGBK4 (Arautos do Rei) traz uma frase muito profunda: “ (…)pecado não se explica, pecado se paga(…)”. Enganam-se aqueles que pensam que podem agir de forma desordenada sem que isso lhes traga consequências, pois tudo o que semearmos colheremos (Gálatas 6:7). O pecado de Adão e Eva trouxe a morte a seu filho Abel e vários animais, que serviram de sacrifício, o pecado, suas consequências e as desculpas para ele, foram passando de geração em geração.

Felizmente a Graça divina está aí para nos livrar do peso e da punição eterna do pecado (Romanos 6:23), mas temos uma parte a fazer: “Busquem o Senhor enquanto podem achá-Lo. Peçam sua ajuda, enquanto Ele está perto. Os pecadores devem abandonar seus maus caminhos; devem deixar de lado seus maus pensamentos. Todos devem se voltar para o Senhor, arrependidos, e Ele mostrará a sua grande misericórdia. Voltem-se para o nosso Deus, pois Ele mostrará como é imenso o seu perdão” (Isaías 55:6-7 – BV).

Os fins não justificam os meios, por mais racionalizável que seja, pecado sempre será pecado. Arrependa-se, busque o Eterno e receba o seu perdão.

09
jan

O preço

Marco Aurélio Brasil

Para uma criança pobre pode ser motivo de perplexidade ver os brinquedos de uma criança rica. Brinquedos que a ela pareceriam o supra-sumo do gozo, que ela sonharia febrilmente em ter, estariam na casa da criança rica quebrados ou largados no ostracismo de alguma caixa empoeirada. Por que aquilo que é um tesouro para uns pode ser motivo de desprezo e descaso para outro?

Aquilo que se ganha com frequência e que cai no nosso colo sem esforço, tende a não valer muito para nós. E é assim que muitas vezes lidamos com a salvação em Jesus Cristo.

O próprio termo que designa a forma pela qual somos salvos insinua essa percepção: graça. Somos salvos pela graça, somos salvos de graça. Não existe nada que o Salvador espera que façamos antes de nos salvar, então a cruz está aí, como o destroço salvador de um naufrágio, só precisamos abraçar.

Só somos capazes de desprezar ou menosprezar a salvação porque escolhemos ignorá-la ou porque cultivamos essa ideia de graça barata, de algo que, de tão fácil, não tem grande valor, podemos dar a
atenção a isso mais tarde, vai estar sempre aí.

Acontece que a graça só é “barata” para quem recebe. Para Quem dá, ela custa tudo. Morris Venden, um entusiasta da graça e um dos expositores mais didáticos dela que eu conheço. Ele ilustra esse
ponto da seguinte forma: ele, um pastor, está trafegando por uma estrada em velocidade excessiva. É parado por um guarda, que aponta para seu erro. Ele tenta se explicar, fala do velório no qual precisa falar e para o qual está atrasado. O guarda compreende a situação, mas, ao invés de simplesmente deixar de multar o pastor, ele aplica a multa. Ele diz que a lei precisa ser respeitada e a lei exige que, ante uma tal infração, a pena seja cominada. Só que, por se compadecer da situação do pastor, ele mesmo leva a multa até a cidade e a paga.

A salvação não é um passar a mão na cabeça da criança bagunceira e dizer que está tudo bem. É um Deus que se doa e passa a sentir os espinhos e pregos em Sua própria pele, é o divino sentindo-se
desamparado, solitário, incompreendido e alquebrado, para que os desamparados, solitários, incompreendidos e alquebrados pudessem ter esperança e viver da forma como Ele idealizou para ser. A salvação tem um preço altíssimo. Desprezá-la é enfiar aqueles cravos um pouco mais fundo na agonia dEle.

Sempre que penso na enormidade da salvação, lembro de Paulo, que ao encontrar Jesus teve os olhos cobertos por um tipo de escamas. Conosco é o dia-a-dia e nossa propensão ao egoísmo mais extremo que nos tampa a vista. De quando em quando precisamos que as escamas caiam para que vejamos.

02
jan

(i)Lógica

Marco Aurélio Brasil

A graça, a maravilhosa graça de Deus, não pára de me surpreender nem de desafiar meus conceitos do que é justo e lógico.

Jesus disse que João Batista era o maior dos seres humanos, ou seja, ninguém é mais digno de respeito e honra que ele, correto? Fala-se pouco dele na Bíblia, mas por essa fresta eu consigo antever não alguém que tem uma idéia distorcida de seu próprio valor e do valor dos outros, pelo contrário: alguém absolutamente consciente de sua missão e de seu papel na efetivação da vontade de Deus na Terra. É por isso que fica evidente o abismo existente entre a humanidade e Deus, pois ele, o maior dos seres humanos, diz não ser digno sequer de se abaixar e desatar as sandálias de Jesus. Se o maior dentre nós não presta nem para o serviço mais humilde a Ele, quem pode? Jesus precisa convencer João a batizá-lO, porque ele realmente tinha a noção de maior e menor e ela lhe era amplamente desfavorável.

Se ninguém na Terra era digno de desatar as sandálias de Jesus, por que O vemos curvado e lavando os pés de homens? Não de homens dentre os maiores, mas de um grupo ordinário, que há poucos discutia quem seria o maior no reino que Jesus jamais fundaria – pelo menos não do jeito que esperavam. Ele se abaixa, toma um toalha e lava os pés daquele que já havia combinado de traí-lO e daquele que dali a algumas horas estaria praguejando e vociferando para convencer os outros que não O conhecia. Pois é, isto é graça.

Não que Deus despreze as noções de dignidade e hierarquia, pelo contrário. Sendo a expressão máxima de justiça, Ele tem o máximo zelo em dar a cada um o que é seu e ninguém é mais digno de veneração, obediência, louvor, temor, respeito e glória que Ele.

Mas como nós, ao escolher o caminho descendente, perdemos a capacidade de reconhecer que Ele é digno de tudo isso, Ele adota a medida extrema de Se fazer menor do que os menores, para, pelo
absurdo dessa declaração de amor, abrir seus olhos.

O amor inaugura a graça e a graça subverte tudo. A graça torna o indigno objeto do maior sacrifício. A graça faz o mais rico consentir e Se fazer o mais pobre para que o mais pobre possa ser rico. A graça contamina até mesmo a mais exata das ciências, pois na matemática divina um é mais importante que noventa e nove.

A graça desafia meus conceitos de certo e errado. Acostumado a torcer para que o mau morra no fim do filme da forma mais violenta e torturante possível, não consigo entender que, confrontado com o espelho e notando que o mau sou eu, tenha, em lugar da morte violenta e dolorosa, vida eterna e abundante. Continuo estupefato e algo me diz que assim será pela eternidade afora.

06
out

Perdoado

Gelson de Almeida Jr.

Provavelmente você conheça a história do médico e filantropo escocês que tinha por hábito ajudar os menos favorecidos. Após sua morte, examinando seus livros, sua esposa, de coração não tão bom quanto o seu, descobriu aquele que seria o “livro caixa” do marido. Em todas as folhas havia o nome de uma pessoa, o procedimento médico realizado e o custo do mesmo, mas, sobre alguns nomes estava escrito: “Perdoada, demasiado pobre para pagar-me”.

A avarenta mulher levou o caso aos tribunais para ver a melhor maneira de receber aquelas pendências, mas ouviu dos magistrados que, se aquelas anotações haviam sido feitas por seu marido, não haveria tribunal no mundo que permitisse que ela cobrasse.

Ao que você nascer, na frente do seu nome o Eterno escreveu “Perdoado, com direito à salvação”. Você já parou para pensar na profundidade disso? Consegue imaginar em como a dinâmica do universo foi alterada apenas para que o Criador viesse aqui morrer em seu lugar? E o preço de toda essa operação, quanto seria? Se sequer conseguimos imaginar o valor, como poderíamos pagar o preço de nossa salvação?

Só existe uma pessoa em todo o universo capaz de fazer com que você perca a salvação, VOCÊ mesmo. Nem o Eterno tirará esse direito de você, pois, tem a imutabilidade como uma de Suas características, Ele não muda (Malaquias 3:6), mas deixou a cada um de nós o direito de escolha.

Salvação ou perdição, só existem essas duas opções, nossas escolhas diárias definirão nossa situação final. Viva bem para viver eternamente.

26
set

Parábola

Marco Aurélio Brasil

Torno a falar-lhes por parábolas, dizendo: Apesar de serem dez os filhos, nenhum deles podia reclamar de falta de amor daquele pai. Havia ali em dose suficiente para cada um, e sobrava bastante. Para que tivessem uma infância e juventude saudáveis, aboletou-se com eles em uma praia paradisíaca, onde tinham espaço e liberdade. Havia um único lugar proibido: o porto, onde, de quando em vez, atracavam navios mercantes do oriente distante. Esses orientais tinham fama de aliciarem jovens nativos que nunca mais eram vistos.

Você já imagina o que aconteceu. Um dia, os filhos saíram juntos para brincar e não voltaram mais. O pai procurou por toda parte, chamou o nome de cada um, e constatou então que o que mais temia havia acontecido. Decerto seus filhos haviam sido seduzidos a embarcar. Por temer que aquilo fosse acontecer um dia, o pai já tinha um plano engatilhado. Vendeu seu negócio, amealhou uma boa quantia e comprou uma passagem para o oriente. Fez um longo, muito longo caminho, para trazer os filhos de volta.

Encontrou-os espalhados, miseráveis mas encantados com as cores, cheiros e texturas daquela terra distante. Horrorizado, constatou que eles já não se lembravam mais dele e não queriam sua companhia.

O pai instalou-se em um lugar onde poderia acompanhar as vidas de seus filhos. Decidiu que, já que eles não queriam contato com algum com ele, teriam sua vontade respeitada; ele ficaria à distância.
Escolheu um deles então, e começou a mandar pelo correio dinheiro, para tirá-lo da mendicância, e fotos de sua vida passada cheia de felicidade – nas quais o filho mal se reconhecia – acompanhadas de cartas prometendo restaurar aquela felicidade se tão somente ele retornasse, garantindo que ele estava muito, muito perto. Pedia, também, que esse filho contasse aos outros essa notícia fantástica.

O dinheiro fez muito bem àquele filho. No contato com os irmãos, demonstrava que era superior, já que era objeto dos favores especiais do pai – embora a palavra pai fosse esvaziada de sentido para todos. Claro que ele não contou a nenhum deles que aqueles favores todos estavam à disposição de cada um deles. Como havia melhorado de posição, resolveu evitar o contato com os irmãos, apenas dando uma olhada em suas práticas e imitando sua devoção ao que chamavam de pais, pinturas de venerandos homens orientais pintadas por eles próprios.

Durante todo o assédio daquele pai desconsolado, os orientais não deixavam de seduzir os irmãos, de modo que eles estavam se tornando cada vez mais parecidos com eles até mesmo fisicamente. O pai via tudo, e chorava. Sentia-se só.

Tanto mais quando aquele filho que ele havia escolhido para ser o porta-voz de sua misericórdia passou a rejeitar suas cartas. De fato, esse filho preferiu voltar ao estado de mendicância e escravidão na terra estrangeira, seduzido por quinquilharias e substâncias que causavam prazer tão intenso quanto efêmero. Aquele homem, pai de dez filhos, ainda tendo nos ouvidos os gritos alegres das crianças em sua casa, a algazarra típica de uma casa cheia, padecia uma profunda e irreversível solidão.

Mas o amor poderia levá-lo ainda mais longe. Ele se tornaria um mendigo entre seus filhos. E continuaria a apelar.

08
jun

Onde a meritocracia não funciona

Marco Aurélio Brasil

Uma religião centrada no que se deve fazer e deixar de fazer cai no erro fatal da fé cega na meritocracia. Você pensa: “se eu faço as coisas certas do jeito certo e no dia certo, Deus está obrigado a me amar” (não, infeliz, não. Olha pra cruz de novo e veja que Ele já o ama, e de um jeito muito louco que você é incapaz de reproduzir até pelo seu próprio filho amado). E depois que você se convence de que está colocando Deus no cabresto pelo seu comportamento inatacável, você acaba pensando algo assim: “Eu faço as coisas certas, do jeito certo e no dia certo mais do que aqueles ali, logo, minha recompensa será maior” (ah é, gênio?)

O jovem rico era desses, por isso chegou a Jesus com a pergunta errada, embora pareça tão lógica e natural pra qualquer ser humano: “o que eu devo fazer de bom para conseguir a vida eterna?” Depois que ele vai embora, escandalizado com o desafio feito por Jesus de começar a viver uma religião centrada em um relacionamento e não numa lista de podes e não podes, Jesus se vira para seus discípulos e conta uma das parábolas mais curiosas de todas que estão registradas nos evangelhos. Ele diz que o reino dos céus é como o sujeito que acordou de madrugada e foi buscar trabalhadores para sua vinha, combinando de lhes pagar um denário. Quatro outras vezes esse senhor sai ao logo do dia, colocando mais gente para dentro de sua vinha, dizendo que lhes pagaria “o que for justo”. No final do dia, começando pelos que trabalharam menos, ele dá a todos a mesma recompensa: um denário. O que revolta os que trabalharam o dia inteiro.
Bem, a vinha é uma figura clássica de Israel, o povo escolhido e, na dispensação cristã, da igreja. Logo, a primeira coisa que essa parábola me diz é que tem muito trabalho a fazer. Quanto mais gente for colocada para trabalhar, melhor, porque o trabalho simplesmente não acaba. E é claro que precisamos pensar o que seria “trabalhar na igreja”, já que temos uma ideia tão errada disso. Mas não tenho espaço para isso agora, peço perdão.
A segunda coisa que essa parábola me diz é que a graça divina sempre soa injusta, pelo menos aos olhos de quem está preocupado com o que os outros estão ganhando. Os trabalhadores do dia inteiro receberam estritamente o que fora combinado, o que fora prometido. Em lugar de agradecer ter tido trabalho, eles só estariam satisfeitos se recebessem mais do que os demais.
Se a gente olhasse pra cruz do jeito certo, a gente exultaria o fato de o Senhor ter dinheiro suficiente para dar um denário inteiro aos demais também. A gente exultaria pelo fato do pai ser suficientemente rico para matar um bezerro para festejar o filho que retornou. Se a gente olhasse para a cruz do jeito certo e visse o que ela revela sobre quem nós somos e o que mereceríamos não fosse a graça, iríamos ansiar pelo retorno do irmão rebelde com o mesmo grau de ansiedade do próprio pai.
Mas isso só acontece quando a gente percebe que a religião de Jesus Cristo é centrada em uma relação de confiança, e não nas imitações do comportamento que deflui dessa relação.
Marco Aurelio Brasil, 02/06/17

22
nov

Tem futuro

Marco Aurélio Brasil

Segundo leio em Mateus 4:17, o resumo da pregação de Jesus naqueles primeiros dias era “Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo”. Ele convoca Seus primeiros discípulos e começa a percorrer a Galileia pregando e curando os doentes, um coquetel que se mostra irresistível para as multidões.

 É nesse contexto que Ele se assenta num monte e começa o maior de Seus sermões registrados, um sermão revolucionário e de uma profundidade inigualável, que começa com uma lista de tipos de pessoas consideradas felizes por Ele, e felizes porque havia promessas inefáveis para um futuro que Ele não diz se está longe ou perto.

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 Confesso que até hoje não sei bem como ler as bem aventuranças. Será que Jesus está dizendo que eu tenho que procurar ser pobre de espírito, chorar e ser perseguido? Se Jesus enumera qualidade que todos deveríamos perseguir (algo que funciona melhor com “misericordiosos”, “puros de coração” e “pacificadores”), Ele não estaria estabelecendo assim um tipo diferente de salvação pelas obras?

 Sei que muitos teólogos tentam explicar “o que Ele realmente quis dizer” quando falou de pobres de espírito, chorões e perseguidos. Pobres de espírito seriam pessoas que não maquinam o mal, os que choram seriam os que se arrependem pelo pecado e assim por diante. Mas preciso admitir que fico um pouco desconfortável com essas nossas tentativas de torcer o texto para que ele diga mais ou diferente do que está escrito.

 Talvez Jesus não esteja exatamente enaltecendo qualidades que Ele gosta, mas, além de pontuar que a recompensa final está diferida para um momento no futuro, Jesus parece estar frisando a proximidade do Reino. Segundo Jesus, o Reino é tão presente e tão perto que qualquer pessoa, mesmo aqueles que eram então (e até hoje, claro) vistos como perdedores e fracassados sem futuro, como os ignorantes, os que não se vingavam, os que sofriam terrivelmente, bem, até esses poderiam ingressar no Reino. O Reino estava acessível a todos! Na verdade, esses aí estavam mais perto dele do que os que estavam confortáveis e gozando do sucesso efêmero das pompas deste mundo.

 Se é isso mesmo, eu, que tenho a Bíblia lida e relida, anotada e grifada, eu, que adoto com extrema desenvoltura uma grossa casca de santidade e religiosidade, posso estar mais distante do Reino que Ele instalou neste mundo do que os improváveis. Porque na lista de Jesus, geralmente é bem aventurado quem nem suspeitava disso.

O Reino está perto, @migo. Suas portas estão abertas. O futuro diferido é radiante. O convite foi feito mais uma vez.

08
set

Reações e ações

Marco Aurélio Brasil

Existe no Evangelho uma série de axiomas e conceitos que causam estranheza às nossas mentes cartesianas, condicionadas pelos postulados científicos que nos são transmitidos na escola. Philip Yancey chama a atenção em um de seus livros para a esquisita matemática divina, em que, por exemplo, 1 (no caso, uma ovelha) causa maior impacto e alegria que 99. Outra aparente ilogicidade na dinâmica da salvação está na relativização da lei da ação e reação.
Ação-e-reação
Em II Crônicas 20 lê-se a história do reino de Judá recebendo a notícia de que um enorme exército marcha contra si, um exército com o qual medir forças é loucura. Apregoa-se uma reunião para oração, porque o rei Jeosafá percebeu que aquela situação só Deus poderia remediar. No meio da tal reunião um cidadão se levanta e diz pra todo mundo ficar tranquilo, porque no dia seguinte deveriam sair ao encontro do exército inimigo e nem precisariam levar armas, porque Deus cuidaria de desbaratá-lo. Ele fala só isso, sem maiores detalhes. Nós sabemos o final da história; sabemos que uma briga interna entre as diferentes etnias que compunham o exército fez com que ele implodisse. Mas eles não sabiam. Sabiam, no entanto, que exércitos não costumam auto-destruir-se. Sabiam que era – pela razão humana – impossível que alguma coisa freasse a marcha daquela multidão armada até os dentes. Mesmo assim, fizeram a coisa mais
esquisita: não, eles não jogaram nenhum sapato na cabeça do cidadão que falou aquilo; não, eles não ficaram ressabiados e disseram “bom, vamos ver então”. A Bíblia diz que eles começaram a louvar! Mesmo antes de receber a benção prometida, louvaram como se já a tivessem nas mãos. E o relato diz que no dia seguinte, quando saíram ao encontro do inimigo cantando, ou melhor, exatamente quando começaram a cantar e louvar foi que começou a briga que dizimou o exército.

Isso não faz sentido. Desculpe, mas não faz. Na lógica humana, a reação vem depois da ação. O mais razoável seria louvor depois de ver com os próprios olhos aqueles cadáveres cobrindo o vale. No entanto, por uma sobrenatural confiança no caráter dAquele que fez a promessa através de uma pessoa comum, eles anteciparam as coisas e isso foi a senha para que Deus agisse.

A inversão da ordem natural das coisas também vale quando se trata da atuação divina. O relato do filho pródigo diz que ao ver o filho apontando lá na estrada, aquele pai aflito pelos anos de separação sai correndo. Ao alguns libaneses ouvirem essa história estranharam o fato de um homem de posses, um homem de posição, sair correndo. Na mesopotâmia, homens nessa condição jamais correm, apenas caminham dignamente. Aquele pai, contudo, sai correndo e o abraça e antes que o filho possa esboçar qualquer explicação dá ordem para que preparem
um banquete. Tudo isso antes do louvor do filho pela bondade do pai! Não, o filho estava resolvido a mendigar um lugar entre os mais humildes servos, mas o pai não permite isso, ele coloca-lhe o anel no dedo, cobre de vestes o seu filho perdido e o restitui à condição da qual nunca deveria ter saído. A verdade é que Deus não espera o louvor para sorrir e se regozijar. Isso não é o mais importante para Ele, embora seja muito importante. Lá em II Crônicas, sua alegria começou ao ver Seus filhos reunindo-se em oração para buscar Sua ajuda. Ele sabe que aí não há nada no Universo que os pode fazer mal, pois eles estão sob Suas asas. Para um pai explodindo de amor, não há alegria maior. Aliás, o que se espera de um Deus que nos ama loucamente muito antes de lembrarmos que Ele existe?

A conclusão a que chego é singela: se você não está louvando a Deus agora, das duas uma: ou não conhece Suas promessas ou não conhece o caráter dAquele que fez as promessas. E também: se você não está olhando para Ele, está furtando da pessoa que mais te ama em todo o Universo a maior alegria que Ele pode ter.

04
ago

Ilegítimas defesas

Marco Aurélio Brasil

Pessoas. Eis aí a fonte de nossos maiores traumas. São elas que nos deixam embaraçados; elas que parecem nos olhar como quem nos julga todo o tempo; elas que exigem de nós, desde muito cedo, atitudes frequentemente contrárias à nossa real vontade. Pessoas nos machucam muito fundo. São pessoas que nos rejeitam. São pessoas que nos ignoram. São pessoas que nos perseguem, atazanam, pressionam, subjugam. Desde muito cedo aprendemos, então, a definir pessoas como coisa perigosa.

Para nos protegermos e evitar toda sorte de dores acima e outras tantas, desde muito cedo é que aprendemos a arte dos rótulos. Portamo-nos para com elas de forma análoga à que adotamos andando por entre as gôndolas de supermercados. Olhamos os produtos, batemos o olho nos rótulos e não precisamos experimentar o conteúdo para saber que gosto ou utilidade tem.
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A diferença é que com as pessoas nós mesmos rotulamos. “Experimentar” pessoas, você sabe, pode ser muito, muito perigoso. Então, evitamos isso de forma muito acomodada e confortável, batendo o olho nelas e tacando algum rótulo que justifique nosso afastamento. Sempre em “legítima defesa”, of course. É melhor utilizarmos rótulos genéricos, tais como “ultrapassado”, “moderninho”, “cafona”, “japa”, “preto”, “playboy”, “branquelo”, “pé rapado”, “crente” e por aí afora, do que nos expor a riscos desnecessários.

Acontece que aquilo que é fonte de nossos maiores traumas é também a fonte de nossas únicas reais alegrias. Melhor colocando: é a fonte de nossas maiores alegrias. Já tive ocasião de escrever sobre o tipo de alegria do Céu, que é, basicamente, pessoas, relacionamentos. E os vislumbres que podemos ter da alegria eterna já aqui nesta Terra estão relacionados com pessoas.

Jesus odiava rótulos. Buscava a salvação de fariseus e prostitutas, indistintamente. Andava entre uns e outros com a mesma desenvoltura e lançando sobre todos o mesmo olhar transbordante de amor. Isaías 53:11 diz que, vendo o fruto de Seu trabalho, ou seja, vendo pessoas, pessoas redimidas, Jesus fica satisfeito. Ele sorri ao ver pessoas e espera languidamente que elas olhem para Ele. Lendo os evangelhos eu aprendo que nós podemos deixar passar muitas das maiores alegrias dessa vida, por puro preconceito. Por vaticinar que dessa e daquela pessoas não há de sair nenhuma coisa boa, antes mesmo de “experimentá-las”.

Entre aprender e praticar vai um longo caminho e peço a Deus que me ajude a trilhá-lo. Quer vir comigo?

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