Tag Archive: Amor de Cristo

06
dez

# Amor incomparável

nsCarlos Drummond de Andrade certa vez escreveu um poema que iniciava se perguntando: “o que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?” E já ao final ele afirmava: “Este o nosso destino: amor sem conta…”.

O que especialmente como homens nos faz atraídos pelo evangelho à primeira vista, senão o amor vivido, testemunhado e ensinado por Cristo? Esse amor desconhecido pelos homens, acompanhado de sabedoria e que tem em si a grandeza da simplicidade e a nobreza da doçura; e que é ao mesmo tempo forte,  rompendo as barreiras dos corações mais duros, cauterizados pela dor causada pelo mundo, não raro pelo vazio existencial que nunca soube responder a contento.

Amor. Eis o tema em que o Mestre se baseou para dizer qualquer coisa que tivesse ouvido do Pai; amor que o fazia obediente, amor que sabia de onde vinha e para onde ia. Diferente dos homens, que são levados de um lado a outro, sempre à procura de direção que satisfizessem as perguntas mais simples, contudo, sem jamais encontrar as respostas.

Eis a razão pela qual todo convertido ao amor de Cristo deve tomar ao amor por norte. Conforme disse Pedro ao Mestre: “para onde iríamos, se apenas tu tens palavra de vida eterna”. O que é esta palavra senão o amor com o qual o Pai nos amou, a tal ponto de entregar seu filho único e divino para viver em corpo de homem para sofrer, suportando o peso humano por inteiro e desta forma nos levar de volta ao Pai?

Nisto se manifestou o amor de Deus, disse João em sua primeira carta – O envio de Seu filho para que vivêssemos por ele.

O que é este amor, senão o amor que nos constrange e ao mesmo tempo nos preenche sobremaneira, fazendo-nos transbordar, e assim fazer brotar o sorriso no rosto, expressão da alma agradecida pelo que vem do Alto! Amor que nos faz desconhecer o temor. Amor que faz alguém perdoar até mesmo quem o ofende ou persegue! Isso o mundo jamais entenderá, e fica tão confuso que sua reação é zombar. Na verdade, sua zombaria é apenas o medo se manifestando em corações vazios.

Ah, o amor! Como viver sem ele? Impossível, pois quem ama é nascido de Deus e só amando se pode conhecer a Deus. Como poderá o irascível, o rigoroso, o inflexível, ainda que conhecedor de todas as letras da escritura, dizer que conhece a Deus se seu coração não estiver tomado por amor?

O amor transforma, sobretudo porque ele é fruto de ninguém menos que o Espírito. Ah! O que dizer senão o mesmo do que disse o Cristo – amar uns aos outros, sobretudo como Ele nos amou! – Há um conto cristão tradicional que diz o apóstolo João ao final de sua vida repetia apenas uma frase ao longo dos anos: Amai-vos uns aos outros…amai-vos uns aos outros…amai-vos…amai-vos…amai!

Que nossa semana, sobretudo nossa vida seja assim, construída a partir desse paradigma divino: Amar e viver o amor incomparável, pois ele é o próprio Deus.

Sadi Peregrino

05
dez

# Vida e Existência

Mateus 16Um rabino certa vez fora questionado por que Israel conseguira sobreviver desde o seu nascimento como nação, mantendo a identidade de seu povo, enquanto tantas outras, reconhecidamente mais fortes e mais ricas, já haviam perecido. A resposta foi surpreendente.

Disse ele que quando se tem vida e se está disposto a morrer por ela, há, portanto, um propósito. Uma vida sem existência, explicou, logo se extingue. As nações que desapareceram, disse ele, queriam apenas existir, e acumulando bens e riquezas se preocuparam apenas em conquistar para assim se manterem vivas. Acreditavam, inclusive, que assim seriam eternas.

Em seguida, ressaltou que o profeta Moisés havia aconselhado o povo que soubessem e se lembrassem para sempre de uma realidade. Que eles não se enganassem, pois não teriam uma boa existência, que seriam espalhados pelo mundo, sendo peregrinos em terras alheias. Também que seriam uma minoria entre as tantas nações e que nenhuma delas os teriam em simpatia, sendo por muitos, senão por todos, hostilizados. Mas que não se preocupassem com isso, bastando que ocupassem sua vida com o seu real propósito e assim a sua existência iria cuidar de si mesma.

Pois bem, mas, qual é esse propósito, perguntou o interlocutor ao rabino. Eis que então este lhe respondera: obedecer aos mandamentos, sobretudo ao caso em questão, ao quarto mandamento. O segredo estaria, destarte, em guardar o sábado, o dia de descanso determinado pelo Eterno.

Intrigado, o homem ainda questionara o rabino, querendo saber por que, afinal, seria uma boa ideia não fazer nada de produtivo nesse determinado dia, não bastasse a obediência ao mandamento.

O rabino lhe explicou que todos os trabalhos que o homem realiza, o faz para que sua existência seja boa. Assim o é em seis dias, quando constrói algo, quando produz seu alimento, quando repara sua roupa, quando arruma sua casa, tornando dessa forma sua vida mais confortável. No entanto, em um dia da semana haveria de deixar as preocupações para o mantimento de sua existência em paz, não se preocupando com ela.

Nesse dia, no sábado – que é shabbat em hebraico – deveria o homem se preocupar apenas em saber sobre o porquê de sua existência e não em como mantê-la. Concentraria em meditar em por que existe e para que, jamais em como existir. Segundo o rabino, esse propósito deu existência à vida do povo judeu, mantendo-o vivo, enquanto poderosas nações inteiras desapareceram.

Moral da história para meditarmos neste sábado: quando se vive a vida pelos propósitos de Deus, damos uma existência saudável a ela e sua permanência acontece naturalmente. Quando se pretende existir a qualquer custo, seguindo os padrões do mundo e deles tornando-se um escravo, certamente o desgaste seguido da extinção será o fim.

Quem mais poderia ter dito isso com tanta majestade, senão o Cristo quando afirmou que aquele que quiser salvar sua vida, esse a perderá, mas, aquele que a perder por amor a ele, que carrega em si o real propósito da vida com existência, esse a salvará. Pense nisso. Um feliz sábado é o que deseja a todos o peregrino da palavra.

Sadi Peregrino

02
nov

# Ele se importa

lion of judahMuito bem. Sua semana inicia hoje e vou te dizer uma coisa: há alguém que está ao seu lado pronto a te fortalecer, te orientar naquilo que precisa fazer e até mesmo no que pensar para que seja um vencedor. Acredite, ele nunca perdeu uma sequer. Seu nome? Jesus. Aquele que demonstrando o caminho da verdade, humilhou a si mesmo e por isso o Pai exaltou seu nome acima de todo nome. Por esse único nome, todo joelho se dobrará nos céus, na terra e abaixo dela, acredite, essa é a sua garantia.

Não se deixe influenciar pela confusão que se instalou no mundo. Deixe para trás todos os pesos, conceitos humanos, e concentre-se em uma atitude: acreditar e amar. Sim, acreditar e amar. É o que fará a partir de hoje. E para iniciar, fique com esta certeza que ele mesmo esclareceu:

“Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede. Todo aquele que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia”.

Sabe o que significa tudo isso? É de você que ele fala. E nada te faltará. Antes que você o conhecesse ele já era fiel. Ele é fiel. É aquele que o levará à vitória diferenciada ainda neste mundo; sobretudo é a sua garantia de chegar um dia à reta final, e receber a coroa da vida, enquanto muitos imaginam chegar lá sozinhos.

Seja feliz e mostre ao mundo que maior é o que está em você a partir de hoje.

Sadi – Um Peregrino da Palavra

01
nov

# Um instrumento de paz

perdaoSe há uma única lição importante que retirei destas eleições, é que cresci. Cresci enquanto me tornei capaz de refletir o quanto ao envolver-me nas discussões sobre a campanha, isso me levou a vivenciar tristezas, separações e inconvenientes, caminhos diferentes da sabedoria e do amor .

Gandhi dizia entender perfeitamente as falas de Jesus, no entanto, não compreendia como nós não nos espelhávamos nelas por completo. É isso. Como eu poderia viver sem respeitar, sem amar, sem perdoar, sem orar e abençoar aos que de mim discordam? Como poderia compreender as verdades cotidianas, se elas não se tornam motivo para que jorre de mim rios de água viva, a fim de abençoá-las? Como viver sem a sabedoria de Deus?

Não, eu não posso viver sem isso. Simplesmente, não posso. Preciso do amor para viver. O amor a ser doado, muito mais do que aquele que recebo. Só estarei vivo se for um instrumento de paz.

Acompanhava o desenrolar das campanhas com equilíbrio, no entanto, por ter concluído como justos os meus juízos, vaidoso eu fui; por manifestar-me apenas com firmeza e sem o ódio que caracterizou aqueles dias, ainda assim fui tolo e insensato.

O livro de Provérbios me diz: ”Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas. Não seja sábio aos seus próprios olhos; tema ao Senhor e evite o mal”.

Sim, eu quero amar e deixar-me transformar, definitivamente, sem que tenha que julgar a quem quer que seja, na ocasião que se apresente. Meu destino é amar. Sinto isso como o ar que respiro, ainda que seja incapaz de fazê-lo por mim mesmo. Dependo de Deus. Dependo do alimento que só pode vir de Sua palavra.

E a confirmação a isso me vem da parte do Eterno, quando me mostra pela carta de Paulo a Timóteo que devo ter nas escrituras a utilidade para o meu ensino, para que eu, como homem de Deus, seja apto e plenamente preparado para toda boa obra”.

Eu aceito a correção de Sua palavra, Senhor! Curvo-me diante de Ti. Que eu diminua para que Cristo aumente em mim.

Shabbat Shalom!

Sadi – Um Peregrino da Palavra

18
out

# Contradições

frase-se-a-igualdade-entre-os-homens-que-busco-e-desejo-for-o-desrespeito-ao-ser-humano-fugirei-dela-graciliano-ramos-126054A maneira como o comportamento humano tem se revelado nos dias atuais chega às barras da discrepância. As redes sociais, por exemplo, têm apresentado debates calorosos, defesas veementes dos mais diversos pontos de vista, como se isso representasse, de fato, comportamentos que regem a vida de seus advogados, engajados politicamente na vida das cidades e dos direitos cidadãos.

Eleitores defendem os partidos políticos que mais lhes agradam, e convenhamos, isso é legítimo, contudo à medida que seguem escrevendo o que lhes vai ao coração, aos sentimentos, muitas vezes cheios de rancor e ódio, se fazem acompanhar pela incoerência, se não diante do quadro político nacional que defendam, por certo que diante da essência do brocardo: “faça aos outros o que quer que façam a você”.

Sim, este, na maioria dos casos das pessoas que passaram a expressar suas opiniões, incentivados pela larga visualização e possibilidade de debate na internet, é aquele ditado que, penso, seja comum a todos. No entanto, não é o que se vê. Ataques levianos e desrespeito para com o ser humano passaram a ser moeda corrente aos que se dizem politizados e detentores de opiniões abalizadas sobre direitos fundamentais.

Pergunte a alguém que defenda a política neoliberal ou a socialista, ou a quem as ataque a uma ou outra, se ela sabe discernir em mínimas palavras, a essência dessas correntes. Vai se surpreender com a quantidade de ignorância a esse respeito, tanto quanto vai se deparar com conceitos enganosos quando comparados à verdade que fundamenta essas teorias. O que dizer então dessas mesmas pessoas que fazem muito barulho mas nunca foram capazes de escrever um e-mail sequer para cobrar posturas de seus representantes.

A vida parece que se tornou um ringue. As pessoas parecem estar armadas para atacar ao primeiro que emita uma opinião sobre qualquer assunto e que seja contrária ao que elas pensem. Isso sem falar na prática da generalização, tomando a parte pelo todo, sem qualquer justiça à particularidade do indivíduo. Onde está o respeito? Pessoas que se dizem defensoras das liberdades de expressão e opinião têm sido as primeiras a responder com indignidade, se confrontadas as suas opiniões com os direitos que reivindicam.

A humanidade está precisando de um pouco mais de tolerância. As pessoas se digladiam na internet e nas ruas, sendo elas mesmas que no frigir dos ovos, esperam para si e para seus filhos, a possibilidade de vivenciarem o respeito e o direito de ser contrário. Como podem esperar algo que não sejam capazes de dar? O que esperam colher com isso senão o ódio? Não se paga o mal com o mal. A resposta calma desvia a fúria, mas a palavra ríspida desperta a ira. A língua dos sábios torna atraente o conhecimento, mas a boca dos tolos derrama insensatez.

O Cristo quando esteve neste mundo de dores e sorrisos forçados, de dentes que rangem ao menor sinal de discordância, demonstrando a intolerância e o desrespeito, e mesmo o egoísmo que não chega a ser reconhecido, falou daquilo que lhe é inerente: Divindade, no sentido mais amplo que possa traduzir o amor. Ele mesmo disse: Dê a cada um aquilo que lhe pertença. Quanto à vida de erros vivenciada pelos homens, advertiu-os: arrependam-se.

Para se arrepender de algo, é preciso antes reconhecer o erro. E todas estas coisas ele as pronunciou com amor, como quem conhece o homem até mesmo naquilo que lhe vai mais oculto ao coração, incapaz de reconhecer. Como pode alguém dizer que ama a Deus, que não vê, se não é capaz de amar ao seu semelhante, que pode ver? Isso tudo é, no mínimo, uma vida de contradições.

Shabbat Shalom!

Sadi – Um Peregrino da Palavra

07
set

# Amor e Vitória

imagesJesus disse certa vez: “Amei uns aos outros como eu vos amei”. Neste domingo ouvi no programa NT Repórter, da TV Novo Tempo, o depoimento de uma pessoa chamada Raquel, que certo dia assistiu uma matéria sobre a vida da menina Vitória, portadora da doença rara conhecida por Epidermólise Bolhosa, que causa bolhas na pele, nas membranas mucosas e no esôfago, que acaba por não permitir que a pessoa se alimente, causando-lhe muitas dores pelas feridas que se alastram por todo o corpo.

Raquel se perguntou: vou ficar indiferente como em muitas situações que nos levam a acreditar sermos impotentes, ou vou me levantar e fazer alguma coisa para tentar mudar o destino dessa criança. “De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras?”, já dizia o apóstolo Thiago. Ela se levantou e fez a diferença na vida de Vitória. Conseguiu patrocinadores para reconstruir a casa da família que é muito pobre, além de profissionais médicos que abraçaram a causa com ela.

Percebeu que precisaria fazer mais do que tentar buscar ajuda. Era preciso ter tempo disponível para dar toda a atenção que o caso requeria. Raquel deixou seu trabalho, que já realizava há dez anos, para se dedicar totalmente à causa. “Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus?”. Ela pesquisou e viu que a doença ainda não tem cura. Não se deu por satisfeita até que encontrou um médico nos Estados Unidos, que havia pensado em um tratamento através do transplante de medula.

Raquel então montou uma campanha para a doação de medula a que denominou: Amor à vida, amor a Vitória. Disse o Senhor pelo profeta Isaías: “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?

Diz a Palavra do Senhor, que o Filho do homem, quando vier em sua glória com todos os anjos, ele se assentará em seu trono na glória celestial, e todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras, colocando-as umas à direita e outras à esquerda. Então dirá aos que estiverem à sua direita: “Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo, pois eu estive enfermo e necessitado e vocês cuidaram de mim”.

Nessa hora os justos que foram escolhidos para estarem a sua direita, perguntarão: “Senhor, quando te vimos enfermo ou necessitado e fomos te visitar?” O Rei responderá: “Digo a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”.

Que a nossa semana seja repleta do amor de Cristo pela humanidade.

Sadi – Um Peregrino da Palavra

10
maio

# Transformações

Lemos no livro de Provérbios: “O coração alegre é como o bom remédio, mas o espírito abatido seca até os ossos”. Já parou para pensar nessa frase? Faça isso e responda-se o que ela lhe traduz além da obviedade de seu sentido literal. Talvez haja muitas possibilidades, pois algumas frases na palavra de Deus tem esse condão: revelar-nos sabedoria para diferentes situações, sem perder sua essência; mas, fiquemos com seu sentido literal.

Quando se conhece a mensagem revelada pelo Messias, há uma transformação em nossos sentimentos que se diz tratar-se do primeiro amor. E deve ser mesmo isso. Como poderia esquecer do que senti naqueles dias? Nem preciso perguntar se você ainda se lembra dos seus, não é mesmo? Certamente que sim. Se não, é porque ainda não foi apresentado a ele. Permita-se.

O fato é que se não somos criados desde o berço conhecendo os frutos do evangelho, normalmente ele nos chega quando, mesmo sem sabermos, mais precisamos conhecer algo que seja verdadeiro e consistente o suficiente para nos tirar do estado vazio em que nos encontramos. Os testemunhos, que em poucos instantes conseguem fazer as vezes de centenas de versos, são excelentes modos de se apresentar o evangelho.

Alegre. É assim que se sente o coração que acaba de conhecer a boa nova, assim como aquele que durante a caminhada se permite crescer no conhecimento espiritual. No entanto, se esta alegria estagnar-se, não recebendo nutrientes para produzir e entregar frutos, como o faz a terra fértil, pronta a receber sementes que germinarão novos ramos, fortalecendo-os desde a raiz, não poderá crescer como bom testemunho a quem precise, e nem as nós mesmos.

E, o resultado mais nefasto desta decisão pode se traduzir no abatimento, sendo-o de forma mais terrível quando este chega a nos secar os ossos, tudo por cultivarmos um coração que se encha de vaidade e de orgulho, de rancores e de enganos, criando falsas verdades, sem a mínima presença da essência maior do evangelho, que é o amor. Com este, a mansidão, a tolerância e o perdão são entre outras, as transformações que nos permitem viver a lucidez de um coração alegre.

O amor pelo próximo, por Deus e por todos os frutos do Espírito são os únicos meios pelos quais podemos, de fato, viver a transformação verdadeira proposta pelo evangelho. Sem isso, ainda que achemos andar por suas palavras, caminhamos por veredas que nos levam à solidão, resultado de um coração endurecido pelo orgulho ou de julgamentos precipitados, frutos da vaidade.

O evangelho é o amor de Deus pelo homem e, ainda que sua inteira compreensão o seja quase inacessível ao nosso entendimento, posto que somos mortais e imperfeitos, se o praticarmos em nossa vida conduzidos pelas mãos do Eterno, tendo o testemunho de Cristo em nossa mente, tanto quanto a própria mente dele em nós, aí poderemos dizer que vivemos com o coração alegre, como que restaurados de uma doença após tomarmos o bom remédio.

Shabat Shalom!

Sadi – Um Peregrino da Palavra

04
maio

# Os caminhos da vida

O repertório da sabedoria oriental oferece-nos um cabedal de contos maravilhosos. Frutos que saltam da observação dos gestos mais simples, se tornaram tábua de reflexão em todo o mundo. Um deles conta uma história em que dois homens seguiam cabisbaixos por um caminho, cada qual em direção contrária ao outro.

Ao encontrarem-se, perceberam que traziam consigo uma quantidade de diversa de sementes. Resolveram fazer uma troca e assim seguiram sua rota. Mais a frente, um deles, o mais velho, mais observador que o outro, percebeu que o jovem homem que acabara de encontrar carregava algo além. Ao recordar-lhe o semblante, esclareceu-se uma tristeza por detrás daqueles grandes olhos. Virou-se para trás, mas as colinas já o escondiam.

Pensou – “Talvez perdido em seus pensamentos; mas, que siga em paz”. Passou o tempo e os homens cruzaram-se mais uma vez no mesmo caminho, agora a carregarem um fardo de pães. A troca mais uma vez fora feita, contudo, o homem que atinara dos sentimentos do mais jovem iniciou uma conversa. De fato, aquele era um homem triste. A solidão, em uma região de homens que tinham esposa e filhos, fora a sorte tecida pelo destino em sua vida.

Estava diante de um homem bastante tímido, porém íntegro, e também um bom pastor de cabras, conhecedor dos cuidados que a elas se deve para crescerem fortes, pelo que se revelou no pouco que disse ao responder sobre o que fazia. Por este motivo, também, foi que então o convidou para cear com ele em sua casa, pois sua mulher estava na casa de parentes, e assim, no dia seguinte poderia conhecer o seu rebanho e dar sua opinião. Aceito o convite, seguiram juntos, conversando sobre a criação, até que o anfitrião achou de lhe contar sobre a agrura que se abateu sobre sua família.

Desta feita, o destino, caprichoso, não havia trazido alguém como se espera aconteça, mas, retirado. Quatro de seus filhos tinham sido mortos por ladrões em uma emboscada. Restara-lhe a esposa, já avançada em idade como ele.

Este fato os aproximou mais ainda. O homem tímido sentiu a dor daquele que acabara de conhecer. Após a ceia, ficaram do lado de fora da casa observando a noite que estrelava as imensas possibilidades do universo. Após algumas horas de conversa, perceberam na experiência de cada um, o equilíbrio vital que os impelia continuar a viver.

O homem solitário encontrou escondido em si mesmo, as razões que o fortaleciam sem que as vislumbrasse, sendo a vida, ainda que solitária, a oportunidade de estender a mão a quem precisasse, tornando-a repleta de familiares como as estrelas daquele céu. O mais velho, por sua vez, revelou também a si próprio, não apenas a beleza que ainda encontrava nos olhos de sua mulher, sem se dar conta, mas, inclusive, de quanta vida há para ser conhecida, ainda que a noite caia em meio ao caminho.

Ocorreu-lhes nesse momento a lembrança de uma passagem do evangelho, em que Jesus, que não teve esposa e nem filhos, pois sua vida voltou-se ao plano divino, a ele reservado para carregar um fardo que só ele o poderia fazê-lo, em determinada ocasião, ao estar com pessoas que o ouviam falar do reino de Deus, precisou repreender ao interlocutor que o interrompia insistente, avisando-lhe que sua mãe e irmãos se encontravam do lado de fora da casa, dizendo: “Quem é minha família senão os que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus?”. Razão que exemplificava a necessidade imediata a ser suprida aos que têm fome espiritual.

Ao final, ao recolherem-se para descansar a espera do dia, compreenderam que, de fato, os laços familiares são em si, as oportunidades mais próximas que temos para revelar o sentido da vida. Contudo, se não os temos, igualmente os homens em nossos caminhos, solitários ou ávidos por um conforto, são aqueles a quem devemos voltar nossos pensamentos, tornando-nos conscientes do peso do ego e da força do amor, este, o alimento legítimo a ser trocado por onde quer que se vá, da maneira como se esteja vivendo, pois sempre haverá alguém que precise de algo mais do que nós.

Shalom!

Sadi – Um Peregrino da Palavra

26
abr

# Semeando a Palavra

Atualmente o que mais se vê nas exposições midiáticas sobre o evangelho são pregações em nome da verdade, por pessoas que se dizem discípulos ou sacerdotes de Cristo, entretanto ofendendo-se uns aos outros, acusando-se mutuamente por aquilo que entendam serem distorções de interpretação (muitas delas evidentes), ou ainda tratando-se com tal indiferença ou hipocrisia que chega a ser triste, para não se dizer, trágico.

Isto sem citar as ocasiões em que, por supostas defesas do evangelho em face de valores do mundo secular que a ele se apresentem dissonantes, o fazem de maneira agressiva, comportamento este mais desarmônico ainda. O certo é que as escrituras têm sido expostas sem qualquer expressão de sua essência, qual seja amor a Deus e ao próximo, vivenciados mediante a mansidão do coração.

Quanto à diversidade de doutrinas, é sabido, perfeitamente, muitas foram criadas a partir de textos bíblicos retirados de seu contexto e, por atenderem a conveniências humanas, ainda que sejam frutos de enganos a que foram submetidos por não as colocarem à prova diante da Palavra, o certo é que voltar atrás se tornou complicado. Daí em diante a natureza humana, nada espiritual, se convence que o melhor a fazer é continuar, ainda que exponha o evangelho ao ridículo, em meio a brigas e discussões doutrinárias, resultando no afastamento de pessoas que poderiam conhecê-lo em uma experiência real com Deus.

Em determinada ocasião, Paulo ao se dirigir aos cristãos na cidade de Corinto, advertiu-lhes estarem ainda se comportando como crianças, devido a tanta divisão doutrinária a que deixaram submeter-se, sendo impossível dar-lhes alimento espiritual sólido, pois estavam totalmente limitados na compreensão da essência do evangelho. Diziam os coríntios: “Eu sigo a Paulo”; e o outro: “Eu sigo a Apolo”; como se isso fosse credencial para alguma certeza de melhor doutrina. Razão pela qual o apóstolo perguntou a eles quem era Paulo (ele mesmo) ou Apolo, senão cooperadores de Deus. E sentenciou: “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem dá o crescimento”.

Oras, se um ser humano que por ventura busque ter comunhão com Cristo e ainda ignore determinadas verdades, quem pode as revelar em caso de incompreensão total senão o espírito de Deus? Ainda que o homem possa fazê-lo mediante estudos comprometidos com a verdade, deve se dirigir com amor, paciência, alegria, paz e bondade, pois estes são frutos do espírito, jamais mediante a agressividade das imposições.

Outro aspecto desta “guerra santa” é a contraposição dos valores humanos aos do evangelho da forma como tem se dado em meio à mídia, nas casas legislativas, tornando-se um ringue aos pés dos opositores, em nada acrescentando ao conhecimento da palavra de Deus, ao contrário, tornando pessoas que não a conhecem, detentoras de um ódio injusto para com o evangelho.

É certo que Cristo afirmou que o mundo odiaria aos que amam e vivem pelo evangelho, contudo, isto se daria em face de um comportamento cristão condizente à sua essência, e não mediante um comportamento humano que procura falar em nome do evangelho. Quando contraposto, Jesus revelava a verdade com sabedoria e retirava-se. A ninguém impunha nada. Buscava alcançar os corações mediante o amor. Apenas aos sacerdotes fariseus, cheios de si que eram, os chamou de hipócritas, contrapondo-os à verdade, mas, neste caso porque aqueles se diziam servos de Deus, justificada assim, a dureza da fala de Cristo.

A semente do evangelho é plantada nos corações pela pregação, e quem a faz crescer no entendimento é Deus, e não o homem discípulo ou sacerdote, por meio de suas imposições doutrinárias e ofensas pessoais; a estes, no máximo, se couber-lhes acrescentar algo, o será pelo bom testemunho, tão somente.

Shabbat Shalom!

Sadi – Um Peregrino da Palavra

 

20
abr

# O meu redentor vive!

Há algumas relações interessantes entre a páscoa judaica e a cristã.

Pessach em hebraico significa passagem. A festa da páscoa na cultura judaica, como todos sabem, comemora a libertação de Israel da escravidão no Egito. Isso teria acontecido no mês de nissan, que marca também a transição entre o inverno e a primavera no hemisfério norte. Por aí é fácil verificar como inverno e escravidão, primavera e liberdade se relacionem simbolicamente.

A páscoa cristã, por sua vez, comemora a ressurreição de Cristo e representa a vitória da vida sobre a morte, relacionando-se à libertação da sujeição do ser humano ao pecado e, consequentemente, da morte que não nos permitiu vivermos a plenitude com Deus desde a separação.

No entanto, por vivermos, ainda, em corpo corruptível, o pecado permanece em nós, todavia pela realização da promessa de liberdade por ocasião da morte ter sido vencida, recebemos a possibilidade de vivermos pela graça, rejeitando o pecado, até a volta de Jesus.

A ressurreição de Cristo se tornou nossa páscoa, ou seja, nossa passagem: da morte espiritual para a vida e, porque ainda esperamos a sua volta, para enfim vivermos a plenitude dessa vida espiritual, a graça representa um reflexo da vida plena que haveremos de viver, assim como os israelitas que foram libertos da escravidão, continuaram no deserto até que pudessem entrar na terra prometida.

A abundância que vivemos o é por meio da graça, que nos permite suplantar a corrupção de que é feita nosso corpo. Isto, pois, em Cristo depositamos toda a confiança que precisamos para seguir com fé neste deserto. A ele entregamos nossos fardos, impossíveis de carregar por nós mesmos e, recebemos a sua paz que excede ao entendimento humano, justamente para que possamos ter uma postura diferenciada da que tem o mundo diante das adversidades.

Dito isto, é importante ressaltar uma forte semelhança entre os fatos que ensejaram ambas as páscoas. Cumpre dizer que a festa de “pessach” tem seu significado – passagem – por conta da passagem do anjo enviado por Deus ao Egito, e não da passagem, essencialmente, da escravidão para a liberdade. Aqui reside a semelhança maior. Foi comunicado a Moisés que as casas dos israelitas deveriam ter seus umbrais marcados pelo sangue de um cordeiro, e assim os escolhidos não seriam atingidos pela morte.

Cristo é esse cordeiro. Dele é o sangue que nos marca, que nos sela para o tempo do juízo, que haverá de ocorrer por ocasião de sua volta. Maranata! E, como afirmou Paulo ter o Eterno ressuscitado a seu filho, o pregação do evangelho e a fé em Cristo não são vãs.

Por tudo isso podemos evocar as palavras de Jó, e dizer felizes: Porque eu sei que o meu redentor vive!

Shalom!

Sadi – Um Peregrino da Palavra

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