Sobre aquilo que não te define

Sobre aquilo que não te define

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Quando os ventos super favoráveis sopraram sobre o Brasil durante os primeiros anos da era Lula, encontraram uma grande demanda por consumo reprimida havia muitos anos. A classe média fez a festa e essa festa representou uma mudança grande de relacionamento com o dinheiro e o que ele compra. Mas toda aquela dopamina liberada com compras já se evaporou há tempos e fica no lugar o mal-estar típico do pós-excesso.

Há um burburinho em torno do filme Minimalistas, que conta esse movimento em prol do desprendimento dos bens materiais. Nas últimas semanas ouvi nada menos que três podcasts sobre o documentário (que está na Netflix). Assistindo o filme com minha esposa, achamos curiosa a empolgação dos rapazes que descobrem uma enorme alegria em darem embora roupas, objetos e móveis que usam muito pouco, ficando só com as peças essenciais e preferidas. Eles escrevem um livro, editam um site e saem pelos EUA fazendo palestras pregando um estilo de vida com menos. Achamos especialmente divertida essa excitação de quem espraia um conceito tipicamente cristão, mas sem Cristo.

O que hoje chamam de minimalismo, o cristianismo chama de simplicidade. A simplicidade é uma das virtudes clássicas, pregada ao longo dos séculos por homens devotos (Francisco de Assis talvez seja o expoente máximo). É claro que não se trata de uma exclusividade do cristianismo, mas essa virtude está enraizada na Bíblia, a começar pelas palavras de Jesus “A vida de um homem não consiste na quantidade de seus bens” (Lucas 12:15) e em passagens como “Conservem-se livres do amor ao dinheiro e contentem-se com o que vocês têm” (Hebreus 13:5).

É que nossa identidade está em Cristo, e não no modelo de nosso telefone, na casa em que moramos, no carro que dirigimos ou na quantidade e variedade de cores de relógios que empunhamos. Nada disso é capaz de suprir o desconforto existencial.

O filme mostra uma mulher que decidiu usar apenas 33 peças de roupa, incluindo acessórios e calçados, durante três meses (como boa americana, deu um nome para o seu “programa”: 333). Para seu espanto, ninguém notou que ela estava repetindo as mesmas roupas diariamente. Já o sorriso dos rapazes que se libertaram da ciranda do consumo, isso muita gente notou e tem se sentido desafiado a mudar o estilo de vida…

Imagina como seria se houvesse gente pregando esse aspecto do evangelho de Jesus e todos os demais também?