O chicote

O chicote

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Tenho a impressão de que qualquer cristão com autocrítica já parou para pensar se sua religião não é de fachada pelo simples fato de que não vive como madre Teresa de Calcutá, por exemplo. Lê Tiago 1:27 e descobre que religião de verdade, a pura e imaculada, é a que se ocupa dos desvalidos, e a consequência disso é um forte sentimento de culpa quando se ocupa de si mesmo, de seus problemas, quando pede o favor divino para si. Parece que o certo de verdade é sofrer, sofrer muito, privar-se de tudo, viver na ponta do chicote.

Mas Madre Teresa de Calcutá, esse exemplo fantástico de uma vida inteira devotada aos miseráveis, eu não consigo achar na Bíblia, por exemplo. As figuras mais próximas me parecem ser Dorcas e os diáconos da igreja primitiva, mas os exemplos bíblicos mais enaltecidos (Abraão, Davi, Daniel, José, Esdras, Paulo, Pedro) mostram pessoas tocando suas vidas ou, no máximo, aplicadas muito mais em pregar e divulgar o evangelho do que propriamente em atender às necessidades mais materiais dos outros.

Esse curso de pensamentos me faz concluir que pelo menos Deus não exige que todos sejamos madres teresas. Os heróis bíblicos suplicaram por seus problemas pessoais, clamaram por questões que não ajudavam em nada a melhorar a distribuição de renda mundial e o fato é que Deus estava muito atento a essas preces. Pode não ter respondido conforme o adorador esperava, como foi com Paulo e seu espinho na carne, mas Ele definitivamente estava ali, ouvindo, respondendo nem que fosse com algo como “minha graça te basta”, sem censurar ninguém por se angustiar com seus problemas.

Não existe nada de indigno em exercitarmos nossas profissões seculares, nem muito menos de fazermos a Deus pedidos relacionados a elas. Também não há demérito no cristão que começa suas orações pedindo por si mesmo e só então passa a cuidar dos outros.

Fico com a forte impressão de que a estratégia divina para responder aos achincalhes e distorções de Seu caráter que ouvimos hoje em dia é ter pessoas com ocupações normais, mas demonstrando possuir um profundo senso de dependência de Deus, um acentuado desejo de comunicar-Se com Ele e uma sempre em evolução vontade de ter as mesmas prioridades e conceitos que Jesus tinha. São pessoas vivendo no meio das outras e testemunhando de uma realidade diferente que podem revolucionar o conceito que os outros fazem dEle. Como quem conta uma parábola, Deus quer que a diferença, que é tão substancial, só seja notada por quem chega bem perto e olha os detalhes.

O que Deus quer de sua vida, especificamente, eu não sei dizer e pode ser algo bem radical. Mas pode ser que Ele o queira vivendo a sua vida, na sua cidade, entre os seus conhecidos. Pode ser.  Considere a hipótese. Só não hesite em orar a Ele perguntando, isso não é pecado nenhum.