Gente como a gente

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A história da ditadura brasileira, quando escrita pelos ditadores, nunca traz o termo ditadura. Fala em “revolução”, termo muito mais simpático, que evoca Robespierre, Danton e Marat. A história soviética, contada pelos soviéticos, pinta Lênin e Stalin como santos e heróis. Os filmes de guerra americanos mostram, em geral, os americanos como agentes da liberdade e dos valores mais nobres da civilização, os mocinhos da história. E por aí você entende meu estranhamento ao ler o relato dos discípulos de Jesus pintados por eles mesmos.

Tomé, segundo Caravaggio

O Novo Testamento é incrivelmente honesto quanto à grandeza (ou falta de) de seus protagonistas, o que é incrível se considerarmos que foram eles mesmos quem o escreveram. São pessoas tridimensionais, com falhas e lacunas gritantes. O único discípulo ao qual é atribuído algo que se possa chamar de uma virtude é Natanael, de quem Jesus diz que era um “israelita em quem não há dolo” (João 1:47). Não ter dolo é uma coisa boa, mas imagine os professores de Educação Moral e Cívica dos anos 70 sendo orientados a contar aos alunos que “Costa e Silva era uma pessoa sem dolo” e só isso. Nenhum elogio adicional, nada.

Os evangelhos, portanto, são uma aula magnífica sobre como tratar com pessoas sem grandes virtudes. Jesus demonstra o tipo de relacionamento capaz de transformar discípulos erráticos em apóstolos intrépidos. Temos uma aula sobre como tratar com os arrogantes (Pedro), como tratar com os pecadores contumazes (Mateus), como tratar com os estourados (João e Tiago), como tratar com os fanáticos políticos (Simão, o zelote). Mas meu preferido nessa lista é Jesus ensinando como tratar com pessoas como eu. E sim, estou falando de Tomé.
Tomé passa praticamente em branco durante todos os evangelhos. Em três anos e meio de caminhadas com Jesus, Tomé não fez absolutamente nada de muito relevante para merecer ser registrado em algum dos quatro evangelhos. Mas quando Tomé chegou no cenáculo naquele domingo de ressurreição e viu a excitação frenética de seus companheiros, o que ele demonstrou não foi uma descrença covarde, mas a coragem de confessar sua descrença. Ele se recusou a entrar no clima de festa enquanto seu coração não admitia a possibilidade de festa. Foi essa descrença que possibilitou sair de seus lábios, mais tarde, uma das frases mais fantásticas registradas por um ser humano nos evangelhos: “Senhor meu, e Deus meu!” Jesus me ensinou como tratar com a descrença honesta. Ele Se aproximou com amor e se ofereceu para ser tocado por Tomé, quando outro líder qualquer teria censurado sua falta daquilo que Jesus mais precisava que eles tivessem: fé.
Estranho, portanto, que nós, em teoria seguidores de Jesus Cristo, tenhamos uma reação tão diferente à descrença. Nós desestimulamos a confissão da falta de fé, mesmo vendo no episódio de Tomé que essa honestidade intelectual é muitas vezes o trampolim para o louvor mais genuíno. Jesus Cristo mostrou como transformar a dúvida em culto. É convivendo junto com essas pessoas e deixando que elas vejam e toquem as evidências de nossa própria ressurreição.
Acho que se eu confessar minha absoluta falta de grandes virtudes inatas, poderei ser conduzido a prestar culto genuíno. E poderei agir com os outros como Jesus agiu.