
Informativo Mensal da IASD Nova Semente

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Eu gosto é da parte espiritual, tio!

Essa foi a matéria mais difícil que fiz em minha vida. Não que a minha carreira seja extensa, mas de todas que já fiz nesses anos que brinco de comunicar, esta foi a mais surpreendente. Parecia o desafio mais simples de todas as pautas; entrevistar uma criança, qual seria o segredo?
Pensava que o gravador poderia fascinar, na verdade, até o fez, mas não por muito mais que um instante. O encanto acabava no momento em que eles percebessem que por detrás daquele aparelho engraçado havia um “tio malévolo”, querendo captar suas frases de efeito para escrever uma matéria.
Vi que não poderia entrevistar uma única criança, das tantas que à Sementinha vêm. São tantas carinhas a serem retratadas, frases célebres a serem ouvidas que seria injusto citar em minhas palavras apenas um; todos são de pontual presença, é praticamente impossível fazê-los parar por mais de três minutos.
Mas apenas falar do Rafa e de como ele me enrolou, brincou com o gravador e me respondeu apenas duas das trinta e sete perguntas que fiz, seria injusto. São tantas histórias e detalhes que teria de citar as notáveis que estão em meu gravador.
Impressiona-me a energia com que Felipe não pára de brincar. Ele praticamente coloca todo o espaço ao redor em estado de ebulição. Fazê-lo parar para falar um instante sequer não fora possível; para falar com ele, tinha que correr ao seu lado. A alegria dele de estar naquele espaço é contagiante, é impossível vê-lo passar e não abrir um sorriso com sua face traquina. A alegria de vir à igreja por sentir que isso é bom e divertido era algo que desejei por muitos anos. Ver estampado no rosto de uma criança revigora o sentido de estar aqui.
Não citar Elian seria um crime. Parecia uma tarde de sábado tranqüila quando este rapaz resolveu sumir durante o louvor. Deu um nó em toda Sementinha e recepção, invadiu o programa Conexão por que queria ir para os braços de sua mãe. Ao encontrá-la, a tormenta que o fizera correr como se fugisse de um leão desaparecera e em um piscar de olhos voltava junto aos amigos.
Elian agia como se nada o tivesse atormentado. É incrível, para as crianças qualquer problema é caos, e quando se defrontam com dificuldades em sua pequena realidade fazem aquilo que é de mais instintivo; correm para os seguros braços dos pais. Penso em quantos problemas vivenciei e por achá-los insignificantes os quis encarar sozinho. E o quanto penei com as menores pedras e lembro que se tivesse logo corrido aos braços do Pai, poderia no mesmo instante voltar junto aos meus amigos, como se nada tivesse acontecido, sinto-me rendido pela inteligência desse garoto.
Aquilo que de mais intenso já vivenciei foi o comportamento dessas crianças. Minha personalidade é de um observador, porém, fora inevitável manter as barreiras que me limitavam a um espectador da vida quando as fortes letras soaram das únicas respostas que obtive de Rafa. “Eu gosto do espiritual, tio”.
Não era a música, tampouco as brincadeiras, nem o drama; o que ele mais gosta na sementinha é aquilo que chamou de ‘espiritual’. Quando perguntei o motivo, lá para terceira vez, disse-me atravessado, “porque Deus é meu amigo”.
Eu sei que com uma ou duas frases não se faz uma entrevista. Mas com meia frase esse menino me fez ver todo o sentido deste lugar existir. Eu, sob a minha lógica preconceituosa de um adulto, pensava que uma criança com menos de cinco anos jamais preferiria esse momento quieto, ordenado, estático à “muvuca”, alegria, agitação dos outros momentos. Fui invertido de cima a baixo com uma mera frase de alguém que me confessou não saber quantos amigos tem porque ainda não sabe contar. Quanta sabedoria nesses potes de quatro anos...
Por Paulo Rhedy