Cansaço

Cansaço

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Coisas que têm me deixado particularmente assustado ultimamente: o planeta Terra só foi ter um bilhão de pessoas pulando em cima dele lá por 1840d.C.. Ou seja, levou quase 6.000 anos para chegarmos ao primeiro bilhão. Já estamos no sexto, contudo, e entre o quinto e o sexto foram meros 12 anos. Evidentemente estamos vivendo uma explosão demográfica impressionante.

Se engrossarmos o caldo com a noção de que até há cem anos a população no Ocidente estava concentrada 80% no campo e só 20% nas cidades, mas que a proporção se inverteu completamente agora, constataremos que esse monte de gente está empilhada nas grandes cidades, com espaços reduzidos para tudo, cotoveladas, pisões, puxões, empurrões, odores fétidos, irritações e quejandos.

Se adicionarmos à receita a lei da demanda e da oferta, veremos que por estarmos no coração da explosão demográfica, há muito mais gente correndo atrás do pão de cada dia, que, por sua vez, está cada vez mais longe, a não ser que você chame comida congelada de pão-nosso. E se lembrarmos que o que o homem considera “pão nosso de cada dia” hoje é muito mais do que considerava há décadas, ou seja, que inventamos necessidades que não existiam e consumimos uma montanha de lixo inútil sem pestanejar, teremos uma ideia das razões pelas quais vivemos todos cansados e estressados a ponto de o coreano Byung-chul Han rotular nossa sociedade como “A sociedade do cansaço” (Editora Vozes).

Durante boa parte da história do homem, ele viveu cansado pela busca da salvação de sua alma. Essa foi a preocupação preponderante em eras e eras. “O que devo fazer para ser salvo?”, a pergunta que o jovem rico fez a Jesus, era mais repetida que o “de onde viemos e para onde vamos?” Não à toa as principais personagens de todas as sociedades eram aqueles que detinham a resposta a essa pergunta: os sacerdotes.

Agora, contudo, que vivemos a quilômetros da horta e do pomar mais próximos, que encontrar o básico e aquilo que nós consideramos ser básico – e que não é – custa muito esforço, requer atenção a uma infinidade de coisas acontecendo ao mesmo tempo, em velocidade frenética, agora que sobreviver requer uma longa caminhada para longe das coisas da alma e das preocupações com a eternidade, o cansaço é epidêmico e mil vezes mais venenoso, porque não tem o consolo da esperança que a preocupação com a eternidade dá. Fomos longe de Deus e estamos estafados – este poderia ser o resumo do raio-X do nosso século.

Mas olhem a resposta-convite que achei. “Pois assim diz o Senhor Deus, o Santo de Israel: Voltando e descansando, sereis salvos; no sossego e na confiança estará a vossa força” (Isaías 30:15). A salvação é uma volta e um descanso. Não precisamos de mais nada além disso.