A jornada do herói

A jornada do herói

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Se Joseph Campbell, o famoso estudioso dos mitos, está certo, poucas histórias foram escritas. A maior parte delas são versões de uma mesma história. Uma delas é o que ele chama de “a jornada do herói”. O cara recebe um chamado para uma aventura, ele tem fortes razões para não aceitar, ele recebe uma ajuda para aceitar, ele passa por uma situação de prova muito grande, ele começa a ser treinado por um mentor, etc. Star Wars e Matrix são versões típicas da jornada do herói.

O fato de essa mesma linha narrativa alcançar os corações de tanta gente é explicado pelo psicanalista Carl Jung com a ideia do inconsciente coletivo. Seriam arquétipos de uma história gravada de alguma forma no nosso DNA e por isso as mesmas histórias encantam gregos e troianos, árabes e nórdicos, russos e africanos.
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A pergunta que me faço é: se isso está gravado em nosso inconsciente, estaria gravado em versões diferentes de quem você ou eu deveríamos ser na jornada do herói? Ou seja, pode ser que no meu inconsciente esteja gravado que nessa jornada eu deveria ser o amigo que ajuda o herói a superar os traumas, ao passo que você sente que seu papel é ser o mentor? Não, é claro que não. Nós todos nos sentimos talhados para ser o herói. Até aqueles caras cansados e adeptos da inércia e do imobilismo e do conforto-acima-de-tudo têm seus momentos de delírio com a assunção do papel de herói. Alguém está nos enganando sobre quem nós somos destinados a ser.
Os irmãos Arrais cantam uma música interessante sobre a negação desse paradigma. Ela diz coisas como “eu quis morrer na batalha, lutar pelo Reino até o fim/mas fui chamado a cantar das batalhas e guerras que nunca vi”. É a história da maturidade de quem chegou à conclusão de que seu papel na jornada do herói é outra, não é o papel do herói.
Segundo Harry Verploegh, nossa vocação real, nossa missão nesta vida, é aprender a orar. Não vencer as batalhas como um herói, mas aprender a pedir a ajuda do Herói arquetípico.“Queremos fazer algo importante para Deus, ser alguém importante para ele. Queremos edificar, mobilizar, mostrar a nossa força e exercer a nossa influência. A oração parece uma coisa tão pequena a fazer – quase absolutamente nada de fato. Entretanto, não foi isso o que Jesus disse. Para ele, a oração é tudo. É uma obrigação, assim como um privilégio; um direito, assim como uma responsabilidade. Nós usamos a oração como último recurso, ela dever ser nossa primeira linha de defesa. Oramos quando não há mais nada a fazer; para Jesus, devemos orar antes de fazer qualquer outra coisa.”
 
A nossa jornada começa pela dolorosa negativa do papel de protagonistas da história. Começa pela humildade de quem se sabe pó ambulante, ex-pó fadado a voltar ao pó. “Me reduziria ao pó de onde vim”, na música dos Arrais. O passo seguinte é esse arranjo transitório de células vivas conectar-se ao que é Eterno para nEle descobrir uma vocação completamente nova, provavelmente absolutamente diferente daquela que ambicionávamos outrora. No tempo dEle. Do jeito dEle. Essa é nossa real jornada, a única que vale a pena ser trilhada.
Feliz sábado, @migos!
Marco Aurelio Brasil, 02/09/16