A distância de Deus

A distância de Deus

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O personagem de Orlando Bloom em “Cruzada” é um humilde ferreiro que acaba de perder o filho e a esposa. Para piorar, a morte da esposa foi por suicídio, aparentemente por depressão causada pela perda do filho. O suicídio era entendido como um pecado imperdoável. Isso significava que ela teria de ser enterrada com a cabeça separada do corpo e ser condenada ao inferno, como o sádico pároco local lhe explica. Ele então se lança à cruzada tomado de um descomunal senso de culpa e de um igualmente gigantesco desejo de ouvir a voz de Deus. Nenhum lugar melhor para isso do que a Terra Santa, Jerusalém, é o que todos dizem.

Nos dias seguintes ele passa de ferreiro a barão, começa a tomar assento junto com a nobreza e a gozar dos privilégios dela, sobrevive sozinho a um naufrágio no Mediterrâneo e a ataques de mouros. Vê-se herdeiro de uma grande propriedade, amigo do rei de Jerusalém e escapa ileso de mil perigos.

Contudo, a primeira coisa que faz ao chegar a Jerusalém é subir no monte do Calvário e ali orar a noite inteira na esperança de sentir-se melhor e de ouvir a voz de Deus. Como nada sobrenatural acontece, desce dali pensando que Deus Se esqueceu dele, constatação que repete em voz alta algumas vezes durante toda a história.

Naufrágio, batalhas sangrentas e à primeira vista perdidas, favores enormes. E no entanto a sensação de que Deus Se afastou. Ora, não precisamos estar em Jerusalém em 1.100 d.C. para termos plena
identificação com esse personagem. Eu – e acho que você também – às vezes tenho essa sensação. Olho para cima e ouço o estrondo de um silêncio ensurdecedor. Tenho a impressão de que Deus não liga para mim, mesmo estando meu metabolismo a trabalhar com perfeição de relógio, o ar a insuflar meus pulmões, meus olhos, coração, baço, tudo em funcionamento. Mesmo havendo provas que deveriam ser definitivas do cuidado dEle.

No meu caso, há doze anos essa sensação tem sido bastante rara e fugaz. Houve um dia do qual me lembro como se fora ontem. Eu estava deitado na minha cama de solteiro numa tarde modorrenta, abraçado ao meu travesseiro e pensando no porque as coisas não saíam como eu planejava. Como estava participando de pequenos grupos de estudo e oração fazia um tempo, bem como descobrindo a graça de ler a Bíblia todos os dias, automaticamente eu conduzi essa inquietação às mãos de Deus. Com uma clareza cristalina comecei a ver o cuidado dEle na minha vida. Percebi a razão de estar especificamente naquela casa (a pior de todas em que minha família já havia morado). A razão de não ter namorado com aquela garota por quem era apaixonado fazia um ano. A razão de ter encontrado aquela e aquela outra pessoas naqueles exatos momentos. Minha inquietação, você pode imaginar, terminou foi em louvor. E desde aquela tarde perdida no calendário de 1993 eu passei a ouvir menos o silêncio e mais o som de Deus. Uma brisa convidando a confiar.

Para olhar para frente e enxergar mais claramente, é preciso olhar para trás e em volta com olhos umedecidos pelo colírio dEle. E suplicá-lo constantemente. Efeito colateral: paz.