Monthly Archive: julho 2017

28
jul

Ampulheta, Esponja, Coador ou Diamante?

Gelson de Almeida Jr.

O título acima foi retirado de uma citação feita por S. T. Coleridge, que agrupou os leitores em quatro grupos:

– Leitores ampulheta, leem rapidamente e em grande quantidade, mas não retém nada;

– Leitores esponja, leem e retém muito do que leram, mas para que “soltem” algo é preciso que sejam espremidos, mesmo assim corre-se o risco de que contaminem aquilo que receberam;

– Leitores coador, são os que leem muito, mas retém o que não presta e deixam passar o que realmente vale;

– Leitores diamante, são aqueles de quem se retira tudo o que é inútil, para que fique apenas a joia.

Falando acerca da leitura do texto bíblico, Paulo criticou os crentes de Tessalônica, pois agiam de modo diferente dos crentes de Beréia, que receberam de bom grado a Palavra de Deus e foram nas Escrituras para confirmar se tudo era verdade (Atos 17:11).

Fica então a pergunta, que tipo de leitor você tem sido em se tratando da Palavra de Deus? Se você é daqueles que lê, medita profundamente no que leu, procura aparar as arestas e ordenar sua vida de acordo com o que leu, de modo a ser uma pessoa cada dia melhor e tornar tudo ao seu redor mais belo, parabéns, você pertence à Categoria Diamante. Os leitores nessa categoria verdadeiramente apreciam as maravilhas contidas nas Escrituras, tornam o mundo melhor e seu preparo para o Dia do Senhor é visível por todos.

A Palavra de Deus é lâmpada para nossos pés e luz para o nosso caminho (Salmo 119:105), quando escondida no coração nos ajuda a não pecar (Salmo 119:11), ela é a verdade (João 17:17) e como tal nos liberta (João 8:32). Apenas o  “leitor diamante” compreenderá Suas riquezas, e, para ele, não existe leitura melhor.

27
jul

Pra ser perfeito

Marco Aurélio Brasil

Descreva uma pessoa perfeita. Como ela lhe parece?

Jesus nos desafiou a sermos perfeitos “como perfeito é nosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:48) e essa afirmação tem causado enorme controvérsia.

O carisma profundo das religiões pagãs politeístas, além do fato de adorarem deuses defeituosos, mesquinhos, irascíveis e ciumentos, estava no fato de que o adorador precisava fazer umas coisas, desempenhar um papel em alguns rituais e pronto: o deus adorado estava meio que obrigado a abençoá-lo. O ser humano gosta muito disso. Ele se sente muito confortável em saber exatamente o que pode e o que não pode fazer para que Deus lhe sorria.

E na hora de definir o que seja perfeição, essa mesma tentação se impõe. A pessoa perfeita, na cabeça de muitos, é a que deixa de fazer coisas erradas. George Knight, contudo, comenta que “na Bíblia e nos escritos de Ellen White, perfeição de caráter não é coisa negativa, mas positiva. Não se trata de algum pecado que evitamos, mas de uma qualidade de vida expressa dia-a-dia” (A Mensagem de 1888, p. 192).

Ser perfeito como perfeito é Deus implica em querer imitá-lO. “O ato de ‘imitar’ a Cristo extrapola infinitamente o desejo de desenvolver uma série de hábitos comportamentais. É muito mais do que aquilo que como, visto ou assisto. Como os fariseus de todas as épocas comprovam, uma pessoa pode ser moralmente correta e ainda assim ser egocêntrica, orgulhosa e maldosa” (Knight, Eu costumava ser perfeito, p. 62).

Imitar a Deus pressupõe querer enxergar as pessoas que carregam Sua imagem e semelhança da mesma forma que Ele. “Nosso Pai ‘faz com que o sol se levante sobre maus e bons, e envia chuva sobre justos e injustos’ (Mateus 5:45). “Ou seja, Deus expressa Seu amor tanto àqueles que O respeitam como àqueles que O odeiam. Podemos fazer o mesmo? Podemos ser como nosso Pai?” (A mensagem de 1888, p.192).

Aprendo outro aspecto da perfeição que Jesus me desafia a perseguir com minha caçulinha de três anos de idade. Ela tem, sei lá, um pouco mais de um metro. Ontem ela aproveitou uma distração minha e pegou o batom da mãe. Depois se besuntar com ele, limpou o rosto na minha toalha de banho. E sentou sobre o pão, amassando-o todo. E pegou coisas da cozinha e espalhou pela casa inteira. E, se você me perguntar, eu direi que ela é perfeita, é uma perfeita menina de 3 anos de idade. Eu preciso corrigir seu comportamento, mas isso não a torna imperfeita.

Assim, perfeição que, como vimos acima, está relacionada à reprodução do caráter de amor demonstrado por Deus, também significa estar no nível que seria de esperar pela idade que se tem. O autor de Hebreus briga com os seus leitores dizendo: “Depois de tanto tempo, vocês já deviam ser mestres, mas ainda precisam de alguém que lhes ensine as primeiras lições dos ensinamentos de Deus” (Hebreus 5:12). Se minha filha limpasse a boca de batom na minha toalha de banho com 20 anos de idade, ou se, com essa idade, ela ainda tivesse 15kg, alguma coisa estaria muito errada.

Ellen White, depois de falar da perfeição que podemos e devemos perseguir especialmente nos dias em que vivemos, afirma: “Precisamos buscar hoje a Deus, e estar decididos a não ficar satisfeitos sem Sua presença. Devemos vigiar e trabalhar e orar como se este fosse o último dia que nos fosse concedido” (O cuidado de Deus, 05/12).

Para ser perfeito como Pai, certifique-se de estar na presença dEle todo o tempo.

26
jul

Carta Aberta

Gelson de Almeida Jr.

Certa feita foi perguntado a um camponês chinês se já lera o Evangelho. Prontamente ele respondeu que nunca lera, mas que já o vira em ação. Surpreso, seu interlocutor pediu-lhe que explicasse melhor e o homem disse:

– Conheci um homem que era o flagelo da região. De uma hora para outra mudou por completo; abandonou todos os vícios e garantia que era por causa do Evangelho. Nunca vi esse livro, mas já vi que ele é bom.

Há muito o salmista escreveu: “Escondi a Tua Palavra em meu coração para eu não pecar contra Ti” (Salmo 119:11). Eis aí o segredo para uma vida exemplar diante do Eterno e diante dos homens. Podemos professar a religião que quisermos e a quem desejarmos, mas, ainda assim, nada será eficaz se o poder transformador do Evangelho não fizer seu trabalho primeiro em nós.

Dias atrás fui questionado acerca de uma pessoa que tem dado muito mal testemunho de sua fé. Como alguém, que se diz cristão, poderia tomar as atitudes que ela tomava? Como é triste tentar explicar as atitudes daqueles que se dizem cristãos, mas que não mostram em seu dia a dia o poder transformador e vivificador do Evangelho. Escrevendo aos crentes de Corinto, Paulo afirmou que eles eram uma carta de Cristo, pois haviam permitido que o Espírito Santo fizesse a obra transformadora em seu coração.

“O mundo não lê a Bíblia. Eles leem a nossa vida. Se você quiser mostrar a Bíblia para ele, mostre através de sua vida”. Somos uma carta aberta lida por todos que nos rodeiam. Podemos mostrar o Evangelho em ação e o seu poder transformador ou não, cada um escolhe o tipo de carta que deseja ser. Qual tipo de carta tem sido você?

25
jul

Bem aventurados, parte 2 – Os que choram

Marco Aurélio Brasil

“Bem aventurados os que choram, porque serão consolados” Mateus 5:4

O cidadão do Reino:

Flávio já desconfiava que a leitura daquele livro sobre a vida (e, especialmente, a morte) de Jesus havia mexido com ele. Começar a orar seria evidência suficiente, não? Mas a confirmação definitiva só veio quando se pegou vertendo grossas lágrimas e soluçando em pleno metrô, no caminho do trabalho aquele dia. Seu choro, tão raro, agora era abundante, a ponto de os circunstantes sentirem-se desconfortáveis.

Começou exatamente uma estação após descer a garota semi-nua e extremamente maquiada que estivera ali. Era uma profissional, decerto, mas sobretudo uma garota. Uma garota.

Flávio percebeu que a leitura daquele livro havia mexido com ele quando identificou que as causas de seu choro sentido eram duas: o que aquela menina fazia com sua vida e o que ele mesmo havia pensado olhando o corpo provocativo dela. Sem dúvida, um choro muito raro.

* * * * *
O reverso:

Paulo recebeu o pastor com sua melhor expressão de respeitabilidade e por uma hora e meia esforçou-se por convencê-lo de que a vítima era ele. Mostrou por a mais b que sua vida sexual com a esposa vinha insatisfatória havia muito tempo, que ela havia desleixado a aparência, que ela não tinha muito ânimo para acompanhá-lo nas atividades da igreja, que o diálogo com ela era difícil, que ela
fazia cobranças demais. Deu exemplos. Mostrou provas. Refutou os argumentos contrários e as passagens bíblicas apresentadas pelo pastor e terminou batendo a porta com força quando ele se foi. Nunca se sentira tão injustiçado.

Foi enterrar o desgosto no apartamento da amante.

* * * * *

“Os cristãos não apenas choram porque seus pecados colocaram Jesus na cruz, mas eles, como seu Senhor, choram por um mundo perdido e dilacerado pela violência”.
George Knight, No Monte das Bem Aventuranças, 11/01.

20
jul

Eu sou seu pai, Luke

Marco Aurélio Brasil

“Eu quero ficar boa logo para poder voltar a trabalhar. O mundo está muito doente” – nos dizia a psicóloga Edna Fernandes depois de contar sua história de superação do segundo câncer no programa Consultório de Família da TV Novo Tempo, na última terça-feira.

O mundo está muito doente. Para Erwin W. Lutzer, uma das razões para isso está na quantidade crescente de crianças criadas sem a presença paterna nas últimas décadas. “De acordo com um estudo de longo prazo feito na Universidade de Harvard”, escreve ele, “as crianças que puderam desfrutar de um relacionamento equilibrado com o pai durante a infância tornaram-se mais amáveis, desenvolveram relacionamentos melhores e foram mais felizes no casamento”. E olhe que seu livro Por que pessoas boas fazem coisas más? foi escrito em 2001, portanto com estatísticas 15 anos defasadas, mas já então o número de crianças que moravam sem os pais nos EUA chegava a 40%.
Para acomodar as coisas a gente tem ouvido a repetição incessante de que está tudo bem, mas… amigo, o mundo está doente.
O número de pessoas com sérias questões não resolvidas com a figura do pai é obviamente muito maior do que 40%. Possivelmente um dos elementos que guindou a série Star Wars à posição inigualável de objeto cultural icônico que ela goza seja a relação pai e filho de Luke Skywalker e Darth Vader. Antes de descobrir que o vilão Vader é seu pai, Luke tem uma espécie de visão em que luta com ele e ganha, mas descobre com horror que o rosto por dentro da máscara era o seu próprio. Existe uma carga simbólica profunda ali, com que milhões de pessoas têm se identificado talvez sem nem perceber.
No livro O Abraço de Deus, M. Lloyd Erickson afirma que a relação que temos com o nosso pai biológico afeta diretamente a ideia que fazemos de Deus. Talvez por isso a figura paterna é evocada por Deus na Bíblia nada menos que 1.180 vezes, contra apenas 324 à figura materna.
Tudo isso apenas reforça dois pontos: 1. precisamos mais do que nunca ser fieis ao 5o mandamento. Se não aprendermos a perdoar e honrar nosso pai, estamos abreviando nossa vida na terra, estamos nos negando desenvolver uma relação mais sólida e saudável com Deus, estamos nos furtando a agir em serviço a esse mundo tão doente, já que doentes permanecemos nós também. E 2. Se você é pai, a responsabilidade é grande. “De fato”, escreve Lutzer, “Deus julgará os pais, punindo-os ou recompensando-os com base na maneira como criaram seus filhos”. Nem sempre a decisão de permanecer ao lado dos filhos, na mesma casa que eles, é totalmente nossa, mas a noção da alta responsabilidade que está sobre nossos ombros deveria dosar nosso egoísmo latente e nos ajudar a ser uma imitação de Deus para eles.
O Pai nos ajudará nisso, se tão somente tivermos coragem.
Feliz sábado, @migos!
Marco Aurelio Brasil, 14/07/2017

19
jul

Não Esconda Deus

Gelson de Almeida Jr.

Certo comerciante, à medida em que enriquecia foi abandonando sua fé. Um amigo seu, preocupado com seu distanciamento do Eterno, fez- lhe uma visita. Colocando uma folha sobre o balcão perguntou-lhe se conseguia ler o que estava escrito nela. O homem disse que conseguia ler claramente e que estava escrito “DEUS”. Colocando uma moeda sobre a palavra pediu-lhe que lesse novamente, o homem disse que não conseguia, pois a moeda escondia “DEUS”. Bem sério, mas com muito amor, o amigo disse-lhe que assim como a moeda escondera a palavra Deus o dinheiro havia escondido Deus de sua vida e convidou-o a voltar aos caminhos do Pai.

Não foi sem razão que o Eterno colocou, como primeiro mandamento do Decálogo, a proibição de colocarmos qualquer coisa entre Ele e nós. Nossas transgressões fazem separação entre nós e o Eterno (Isaías 59:2).  Não existe transgressão (pecado) que não oblitere nossa visão do Eterno e de tudo o que faz por nós. Por mais que achemos que algumas coisas que o Eterno pediu que não fizéssemos são inofensivas, toda transgressão nos afasta do Eterno e de Suas promessas.

Não tenho a menor ideia de como anda sua relação com o Eterno, mas, pecador como todos somos, com certeza você tem alguma coisa que esteja atrapalhando sua relação com Ele. Em seu caso, o que está colocado entre você e o Eterno, o que está cobrindo “DEUS”? Há alguma coisa que tem feito você se distanciar dEle e se desviar de Seus caminhos? Tem você andado em seus próprios caminhos que, por mais que pareçam perfeitos, são caminhos de morte (Provérbios 14:12)?

Acredite, não existe nada que seja bom o suficiente para ficar entre nós e o Pai. Qualquer coisa que se interponha entre o Eterno e nós será danosa e nos trará prejuízo eterno.

18
jul

Bem aventurados, parte 1- os senhores pobres de espírito

Marco Aurélio Brasil

“Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos Céus”.

O cidadão do Reino:

Caminhando pelo corredor que conduzia à contabilidade, Vânia tentava colocar em ordem a confusão de sentimentos que se digladiavam no seu peito. Ao cruzar a porta estaria cara a cara com aquela que, agora ela sabia, havia pelo menos dois meses espalhava um monte de boatos absurdos sobre sua conduta moral e que fôra, no frigir dos ovos, a responsável por ela ter sido preterida na promoção à gerência.

Tinha ensaiado o que diria a ela, seu sangue fervia, mas a dois passos de abrir a porta da contabilidade notou que a situação ia muito além do que podia administrar. A alternativa “amai os inimigos”
impôs-se, criando um nó em sua garganta e revelando sua incapacidade de agir como deveria. Passou reto pela porta da contabilidade e entrou às pressas no banheiro. Encostou-se à parede sentindo o azulejo frio nas costas, baixou a cabeça e, chorando, suplicou em oração “aquele mesmo sentimento, que houve em Cristo Jesus”.

Depois de longos sete minutos e meio naquela posição, respirou fundo, pisou de novo o corredor e abriu a porta da contabilidade para fazer o impossível.

O reverso:

Impecável, como sempre, no terno italiano, ele passeia os olhos pelo círculo formado à sua volta. Esses homens, esses homens gargalhando de sua última piada, jogando a cabeça para trás, olhando para ele com favor, dizendo com o corpo todo que ele era o tipo de pessoa que eles gostariam de ser. Ele sorve o momento. Não é novidade. Na verdade, já foi mais prazeiroso, ele gostaria de ter doses mais cavalares de glória e reconhecimento, mas sempre é bom. Ele olha esses homens, ele sabe que está no centro, sob os holofotes, no exato lugar em que todos gostariam de estar.

Súbito, seus olhos encontram sua própria imagem no espelho ao fundo do salão e uma pergunta cruel de uma única palavra inocula em si um sentimento novo, o medo. A pergunta é: “será?”

* * * * * * * * * *

“Quatro pessoas: o jovem rico, Sara, Pedro e Paulo. Uma curiosa teia liga os quatro: seus nomes. 

Os três últimos tiveram seus nomes mudados: Sarai para Sara, Simão para Pedro, Saulo para Paulo. Mas o primeiro, o jovem rico, nunca é citado pelo nome.

Talvez seja essa a explicação mais clara da primeira bem-aventurança. Quem procura fazer seu próprio nome, fica sem nome. Mas os que invocam o nome de Jesus – e somente o seu amor – recebem novos nomes e, mais do que isso, recebem uma nova vida.”
Max Lucado, O aplauso do Céu, United Press, p. 55.

14
jul

A Porta Está Aberta

Gelson de Almeida Jr.

Certa jovem, filha única de uma abastada família, que recebera a melhor educação possível, decidiu sair de casa à procura de algo que preenchesse o vazio de sua vida. Por mais que os pais implorassem para que ficasse ela saiu de casa, nada mais a satisfazia ali. Conheceu os melhores, mas também os mais abjetos lugares e afundou-se numa vida de depravação e vício. Certo dia encontrou um amigo de infância que, assim como ela, tivera as melhores oportunidades na vida e desperdiçara todas. O jovem não era nem sombra do formoso rapaz que conhecera e se esquivou do contato com ele. O rapaz disse-lhe que sabia de sua deplorável situação, mas que ela não deveria se sentir superior, pois estava em situação idêntica.

Caindo em si a jovem decidiu voltar para casa. Quando chegou viu a porta entreaberta e uma lamparina acesa na sala. Entrou cuidadosamente, mas deu de cara com sua mãe. A jovem disse apenas que entrara porque a porta estava aberta, disse ainda de seu arrependimento e que queria ouvir, só mais uma vez, a voz da mãe. Abraçando-a a mãe disse que ali era seu lar, que desde que ela se fora nunca mais a porta fora fechada e sempre havia uma luz acesa para que ela soubesse que era bem-vinda de volta.

Ao pecar demos as costas ao Pai e à Sua casa, mas Ele nunca desistiu de nós. Ele sabe que aqui não é nosso lar e, para que conseguíssemos chegar em casa, enviou o Filho, que é e o Caminho para a salvação (João 14:6), a Luz para não errarmos o caminho (João 68:12) e a Porta por onde conseguiremos entrar para a salvação (João 10:9). Não tem como errar e Ele não rejeitará ninguém que vá até Ele (João 6:37). Creia, por melhor que seja a vida aqui existe algo muito melhor nos esperando na casa do Pai, aqui não é nosso lugar, nossa pátria é a celeste. Volte para casa, a porta está aberta.

13
jul

Gente como a gente

Marco Aurélio Brasil

A história da ditadura brasileira, quando escrita pelos ditadores, nunca traz o termo ditadura. Fala em “revolução”, termo muito mais simpático, que evoca Robespierre, Danton e Marat. A história soviética, contada pelos soviéticos, pinta Lênin e Stalin como santos e heróis. Os filmes de guerra americanos mostram, em geral, os americanos como agentes da liberdade e dos valores mais nobres da civilização, os mocinhos da história. E por aí você entende meu estranhamento ao ler o relato dos discípulos de Jesus pintados por eles mesmos.

Tomé, segundo Caravaggio

O Novo Testamento é incrivelmente honesto quanto à grandeza (ou falta de) de seus protagonistas, o que é incrível se considerarmos que foram eles mesmos quem o escreveram. São pessoas tridimensionais, com falhas e lacunas gritantes. O único discípulo ao qual é atribuído algo que se possa chamar de uma virtude é Natanael, de quem Jesus diz que era um “israelita em quem não há dolo” (João 1:47). Não ter dolo é uma coisa boa, mas imagine os professores de Educação Moral e Cívica dos anos 70 sendo orientados a contar aos alunos que “Costa e Silva era uma pessoa sem dolo” e só isso. Nenhum elogio adicional, nada.

Os evangelhos, portanto, são uma aula magnífica sobre como tratar com pessoas sem grandes virtudes. Jesus demonstra o tipo de relacionamento capaz de transformar discípulos erráticos em apóstolos intrépidos. Temos uma aula sobre como tratar com os arrogantes (Pedro), como tratar com os pecadores contumazes (Mateus), como tratar com os estourados (João e Tiago), como tratar com os fanáticos políticos (Simão, o zelote). Mas meu preferido nessa lista é Jesus ensinando como tratar com pessoas como eu. E sim, estou falando de Tomé.
Tomé passa praticamente em branco durante todos os evangelhos. Em três anos e meio de caminhadas com Jesus, Tomé não fez absolutamente nada de muito relevante para merecer ser registrado em algum dos quatro evangelhos. Mas quando Tomé chegou no cenáculo naquele domingo de ressurreição e viu a excitação frenética de seus companheiros, o que ele demonstrou não foi uma descrença covarde, mas a coragem de confessar sua descrença. Ele se recusou a entrar no clima de festa enquanto seu coração não admitia a possibilidade de festa. Foi essa descrença que possibilitou sair de seus lábios, mais tarde, uma das frases mais fantásticas registradas por um ser humano nos evangelhos: “Senhor meu, e Deus meu!” Jesus me ensinou como tratar com a descrença honesta. Ele Se aproximou com amor e se ofereceu para ser tocado por Tomé, quando outro líder qualquer teria censurado sua falta daquilo que Jesus mais precisava que eles tivessem: fé.
Estranho, portanto, que nós, em teoria seguidores de Jesus Cristo, tenhamos uma reação tão diferente à descrença. Nós desestimulamos a confissão da falta de fé, mesmo vendo no episódio de Tomé que essa honestidade intelectual é muitas vezes o trampolim para o louvor mais genuíno. Jesus Cristo mostrou como transformar a dúvida em culto. É convivendo junto com essas pessoas e deixando que elas vejam e toquem as evidências de nossa própria ressurreição.
Acho que se eu confessar minha absoluta falta de grandes virtudes inatas, poderei ser conduzido a prestar culto genuíno. E poderei agir com os outros como Jesus agiu.

12
jul

Copo Cheio

Gelson de Almeida Jr.

Certo garoto, um dos sete filhos de uma família muito pobre, sofreu um acidente e foi hospitalizado. No hospital uma enfermeira lhe trouxe um copo com leite. Em sua casa o copo com leite nunca estava cheio e, quando estava, deveria ser dividido com mais irmãos. Lembrando-se disto pegou o copo e perguntou até onde deveria beber. Difícil dizer quem se espantou mais, a jovem com a pergunta ou ele com a resposta de que poderia beber tudo.

Por mais estranha que pareça a situação, é de modo parecido que muitos agem quando se trata das bênçãos e dádivas do Eterno para Seus filhos. Pode-se dizer que, basicamente, duas posturas antagônicas são as responsáveis por tal procedimento: sentimento de humildade que faz com que a pessoa não se sinta merecedora de receber nada e, por conseguinte, não se apropria das bênçãos do Pai e a presunção, atitude típica daqueles que acham não precisar do auxílio divino em sua vida, são bons o suficiente para conseguir o que quer que precisem.

Não importa se por “humildade” ou por “presunção”, em ambas situações o Eterno é impedido de atuar na vida do indivíduo. Exemplo do primeiro caso é o de Adão e Eva após o pecado, não queriam se encontrar com o Pai e se esconderam; no segundo caso temos o jovem rico, que deu as costas ao Salvador, pois tinha tudo o que precisava, a salvação ficaria para outra oportunidade.

As duas atitudes mostram desconhecimento do verdadeiro caráter do Eterno e de tudo o que faz por Seus filhos. Se mantidas, levarão a um afastamento gradual e fatal do Pai. É necessário reconhecer que sem Ele não somos nada e nem conseguimos fazer nada (João 15:7). Não tenha medo de se aproximar do Eterno e aproveitar o máximo que Ele tem a oferecer a cada filho Seu. Afinal, Ele nos oferece de modo gratuito (Apocalipse22:17). Aproprie-se das bênçãos do Pai, elas são suas.

1 2