Monthly Archive: março 2016

31
mar

As obviedades que não vemos

Marco Aurélio Brasil

A minha própria estupidez, bem como a de meus semelhantes, continua me pasmando. Considere, por exemplo, os seguintes exemplos bíblicos, lembrando que a Bíblia, por sua honestidade, é o mais fiel retrato de nossa condição (a condição de todos nós, seres humanos):

blindA viúva de Sarepta. Você lembra da história? Fome braba na Palestina, seca que se arrastava por anos, o profeta Elias vai até Sarepta e encontra a tal viúva catando uns gravetos na porta da cidade. Ele pede que ela lhe traga água e pão, ao que ela responde que só tem um pouquinho de farinha e azeite em casa e que pretende fazer, com
aqueles gravetos, um último pão para ela e seu filho e então esperar a morte. Elias cobra sua fé, diz que ela deve fazer o pão pra ele e que o azeite e o pão não vão faltar. A mulher faz conforme ele diz e acontece aquele curioso fenômeno: as vasilhas de azeite e farinha nunca secam.

Pouco tempo depois o filho dela adoece e morre e ela se indigna achando que a culpa é do Elias. O homem sobe, ora, a criança ressuscita e então a mulher diz esta pérola da miopia humana: “ah, agora sei que verdadeiramente és homem de Deus e que a palavra do Senhor na tua boca é verdade” (I Reis 17:24). Sei. Na hora de a cumbuca jorrar azeite sem parar ainda havia dúvidas?

E quando Jesus multiplicou os pães para aquela multidão enorme e todo mundo comeu e se admirou. Os discípulos acharam que a hora era boa pra, aproveitando a excitação do povo de barriga miraculosamente cheia, começar um levante que culminaria com a coroação de Cristo. Jesus os obrigou a entrar no barco e ir embora e dispersou a multidão antes que fizessem essa besteira. Mais tarde, quando a noite já ia alta e uma tempestade se abatia sobre o barco, Jesus foi até eles andando sobre as águas. Por terem sido frustrados na sua pretensão de coroá-lo, o papo no barco até ali provavelmente fora pouco elogioso a Jesus. Devem tê-lO julgado covarde e tímido e não admira que tenham chegado a duvidar de Seu papel de Messias. Quando Ele entra no barco, contudo, vaticinam: “Verdadeiramente Tu és o Filho de Deus” (Mat. 14:33). Sei sei. Ao multiplicar o pão e o peixe para alimentar cinco
mil homens, fora mulheres e crianças, a coisa estava meio nebulosa, não dava pra ter muita certeza… Santa ignorância!

E você? Que tem sido alimentado por Ele até aqui. Que tem sido guiado, guardado e cuidado, que tem sido livre da morte muito mais vezes do que sabe ou suspeita, que tem sido alvo predileto de bençãos fantásticas, está esperando o quê para chegar à óbvia conclusão e começar a tratá-lO como Filho de Deus? A mulher não precisaria ter perdido o filho para chegar à conclusão e os discípulos não precisavam estar remando contra ondas altas no meio da noite para perceber o mais que evidente!

Será que, como os discípulos, você fica exasperado quando Ele não age da forma que você acha que Ele deveria agir? Será que não chega até a considerá-lO outra coisa qualquer, que não o teu salvador pessoal?

São perguntas que me faço, reconhecendo minha condição de ser humano e por isso mesmo estúpido in natura.

Que Ele pingue Seu colírio em nossos obtusos olhos.

30
mar

Religião Terceirizada

Gelson de Almeida Jr.

“ Estou tão sem tempo que estou passando algumas coisas para outros fazerem (sic). Até minha religião estou terceirizando. Semana passada, quando minha mãe saía para a igreja disse-lhe: Mãe, quando você estiver na igreja faça umas orações por mim, que eu estou sem tempo de ir”.


 

A frase acima, dita por uma jovem na casa dos 35 anos, seguida de risadas suas de vários amigos, foi tirada de uma postagem numa conhecida rede de comunicação, muitos acharam sua ideia tão brilhante que disseram que fariam o mesmo.

Terceirização é um termo, normalmente utilizado nas relações entre empresas, geralmente a maior, transfere para a outra algumas de suas atividades, consideradas não essenciais, objetivando a redução de estrutura operacional, a diminuição de custos e a desburocratização administrativa.

Confesso que quando li a frase acima e vi o riso e as piadas feitas, fiquei chocado, mas, depois, pensando melhor no assunto, percebi que este tipo de “terceirização” ocorre com muito mais frequência que se imagina.

Quantas vezes, diante de um problema terrível, alegando falta de tempo ou pensando em nossa pouca convivência com o Eterno, pedimos a alguém que orasse por nós, ou por algum desejo que quiséssemos ver satisfeito. Isso não é errado, de modo algum, mas pergunto, o que lhe impede de falar diretamente com o Doador da vida e toda a boa dádiva (Tiago 1:17)? Quando foi a última vez que você foi frequente e assíduo na Casa do Pai?

Quando o Eterno viu a separação que nossas ofensas causaram entre Ele e nós (Isaías 59:2), não pensou duas vezes, veio em pessoa pagar o preço de nossos delitos, morreu a nossa morte e nos deixou a Sua vida eterna (Romanos 6:23).

cruz para o CeuO Eterno não terceirizou nossa salvação, porque então terceirizar nossa relação com Ele? Quando você mais precisava Ele veio, mas espera uma resposta de amor, de entrega e comunhão de sua parte. A salvação é individual, ninguém conseguirá obtê-la através da obediência de outro. Ele mesmo afirma ser um caminho diário e individual (Lucas 9:23). Aqueles que terceirizarem sua relação com o Eterno em breve verão o tamanho de seu erro. Você o ama, deseja que Ele seja o primeiro, o melhor e o último em sua vida? Busque-o com inteireza de pensamento e propósito, pois Ele é galardoador dos que o buscam (Hebreus  11:6).

29
mar

Estupefato outra vez

Marco Aurélio Brasil

Quando Paulo viu a Jesus naquela estrada para Damasco, ficou cego. Dias depois Barnabé orou por ele e ele sentiu como se umas escamas tivessem saído de seus olhos. Guardadas as devidas proporções, foi mais ou menos o que senti algumas vezes, sempre em relação à morte de Jesus.

Bem distante na minha memória há fragmentos de uma exposição especialmente emocionante sobre a cena do Calvário. Eu ainda criança, impressionado com o que Jesus havia suportado. Mais tarde, escamas caíram dos meus olhos em pregações eloquentes, ou lendo livros como O desejado de todas as nações, de Ellen White, ou O Jesus que eu nunca conheci, de Philip Yancey, ou ainda lendo o texto  A morte de Jesus pelo ponto de vista de um médico, que recebi por email e que descreve com tintas vívidas os sofrimentos físicos de Jesus ou assistindo à Paixão de Cristo, de Mel Gibson.
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Parece que de tempos em tempos eu preciso de um estímulo externo para considerar com a devida solenidade o gesto dEle. Isso sublinha o conselho de White a esse respeito: bom seria se passássemos uma hora por dia meditando na vida de Jesus, especialmente em seus últimos momentos. Nossa natural tendência à banalização de toda e qualquer coisa à qual estamos acostumados pode ser trágica, notadamente no que diz respeito ao Calvário e o caminho que levou até ele.
O fato é que a cruz foi a mais rasgada, a mais extrema declaração de amor da História. Uma declaração de amor tem o poder de mudar tudo. Ela pode colocar tudo em perspectiva. Se eu sigo indiferente a ela, joguei no lixo toda a carga revolucionária do amor mais puro, e tanto maior quanto improvável, ilógico, que existe.
Na primeira páscoa, a ordem era matar um cordeiro e aplicar o sangue dele nos umbrais da porta. Só isso salvaria os primogênitos de cada casa. Não adiantava, portanto, apenas matar o cordeiro. Isso de nada serviria para aqueles primogênitos caso o sangue dele não estivesse do lado de fora da casa.
Bem, a morte de Jesus, o Cordeiro que tira o pecado do mundo (e, logo, da minha vida também, que está contida no mundo), que ocupa praticamente um terço de cada uma das quatro biografias Suas que temos – os evangelhos, essa morte excepcional, surpreendente, injusta, angustiante, enternecedora, isso de nada vale se eu não pegar aquele sangue que escorre pela madeira da cruz e efetuar uma aplicação pessoal dele nos umbrais de meu coração. Se eu não refletir no que foi aquilo e responder adequadamente, se de tempos em tempos eu não sentir a falta de ar da estupefação, se tocar minha vida indiferente, se não permitir que as escamas de descaso me sejam removidas de tempos em tempos dos olhos… o cordeiro terá sido imolado em vão. Eu vou ter fechado a janela enquanto a declaração de amor mais pungente de todos os tempos estava sendo feita para mim. Vou ter saído do cinema antes do clímax do filme. Vou ter escolhido a calma quentinha da morte eterna e desprezado a emoção incomparável da Vida.
Não é isso o que quero pra mim. Ou para você.

Você pode ter perdido a chance de fazer esse exercício na páscoa. Não perca agora.

26
mar

Páscoa – Obediência e Fé

Páscoa - Obediência e FéPáscoa em hebraico é “pessach” e significa “passagem”, “pular além da marca”, “passar por cima” no sentido de “poupar”. A páscoa foi instituída no Egito mediante a ordenança divina de se sacrificar um cordeiro e comer sua carne acompanhada de ervas amargas e pão sem fermento. Com seu sangue os hebreus marcariam suas casas e assim o anjo pouparia seus filhos no momento em que passasse para sacrificar os primogênitos dos egípcios, devido à resistência de faraó em manter o povo escravizado.

As obras que compõem o antigo testamento também orientaram o povo para a vinda do Messias, e muitos dos fatos ali registrados apontavam o quê e como haveria de ocorrer com ele. A páscoa judaica no Egito foi um desses fatos.

Paulo afirma que Cristo é o cordeiro pascal. A prova disso está na clara relação entre as ordenanças ritualísticas da páscoa judaica com a morte do Messias. O sacrifício do cordeiro aponta para o aspecto de que só a marca do seu sangue (Cristo) pode salvar. O pão sem fermento demonstra a necessidade de se apartar dos conceitos do mundo, não permitindo se contaminar. As ervas amargas remetem à lembrança do amargor vivido no mundo (Egito) para que a ele não voltemos. Mas não só isso.

Tomando ainda a ritualística pascal observada no Egito, o cordeiro que verteu o seu sangue para salvar deveria ser perfeito e não poderia ter os seus ossos quebrados. Cristo é o cordeiro pascal porque nele não se encontrou erro, nele não se encontrou pecado. E como narram as escrituras, nenhum de seus ossos foi quebrado.

Há também outros aspectos nesses contextos pascais. A obediência de Cristo sem questionamentos ao que lhe fora ordenado resultou em Sua ressurreição e, consequentemente, na nossa salvação por meio dele. De outro lado, o aspecto humano. Os hebreus obedeceram porque movidos pela fé. Paulo escreve na carta aos hebreus que pela fé celebrou-se a páscoa e a aspersão do sangue no Egito. A páscoa, portanto, se trata também do testemunho da observância da obediência e da obediência pela fé.

A estes aspectos, as características dos que se separam para o Eterno, quais sejam, a obediência aos mandamentos de Deus e a fé no Messias. Mesmo que saibamos que Cristo verteu seu sangue em favor da humanidade, só o acompanharão quando de sua volta aqueles que de fato se deixaram marcar por seu sangue, que observaram seus ensinamentos e o aceitaram pela fé.

Ao tomarmos Cristo como nossa páscoa é preciso entender que nossa justificação se dá pelo sangue e nossa santificação pela obediência à Palavra. Há sabedoria nestas palavras, não se limitando aos olhos que enxergam apenas a história.

Feliz sábado e feliz páscoa a todos!

Sadi – O peregrino da palavra

25
mar

Para você, fez diferença?

Gelson de Almeida Jr.

estrela do mar na mãoGosto da ilustração do homem que, ao caminhar pela praia, viu um garoto que se abaixava, pegava estrelas do mar e as atirava na água. Intrigado perguntou ao menino porque fazia aquilo e o garoto respondeu que as colocava de volta na água para que não morressem na praia. Do alto de toda a sua sabedoria e petulância o homem disse: “São muitas, você jamais conseguirá colocar todas de volta na água, e salvar meia dúzia não fará diferença alguma”. Mostrando a mão cheia de estrelas do mar o garoto disse ao homem: “Para essas aqui fará muita diferença” e jogou-as ao mar.

Quando o pecado entrou em nosso planeta já estava preparado todo um Plano de Resgate da raça humana. No tempo determinado, o Pai enviou o Filho afim de dar a Sua vida para resgatar a raça humana (Gálatas 4:4 e 5). Fico a imaginar que, astuto como é, o inimigo de nossa alma sussurrou mais de uma vez nos ouvidos de Cristo para que desistisse de nós, afinal era um grupo muito grande de pecadores e muitos nem O aceitariam como Salvador, que Seu sacrifício seria em vão. Mas Ele não desistiu, continuou Sua árdua tarefa de resgate. Graças a isso, você e eu, pecadores como somos, temos direito à vida eterna (Romanos 6:23).

Não tenho a menor dúvida que, muito em breve, quando os salvos estiverem no Céu, o Filho olhará aquela imensa multidão, pensará em tudo o que passou quando aqui esteve e dirá ao Pai:

– Para esses fez toda a diferença.

Para muitos o sacrifício de Cristo fará diferença, e para você? Mostre que fez a diferença, aceite-O como o seu Salvador e Senhor de sua vida.

24
mar

O olhar de Noemi

Marco Aurélio Brasil

O livro de Rute na Bíblia narra a história da moça que, quando o marido falece, resolve seguir a sogra até um
país estrangeiro, de hábitos e cultura tão diversos e que acaba abençoada por Deus e se torna uma ascendente de ninguém menos que o rei Davi, e, mais adiante, do próprio Jesus.

Chamou-me a atenção de forma especial os versos 20 e 21 do primeiro capítulo, que apresenta a resposta de Noemi aos seus antigos vizinhos e parentes que vieram saudá-la ao ela chegar de volta do estrangeiro. Ela disse: “Não me chamem Noemi [que significa “agradável”]; chamem-me Mara [isto é, “amargura”] porque… parti com as mãos cheias, e o Senhor me trouxe de volta com as mãos vazias”.
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“Parti com as mãos cheias”. Fiquei pensando como isso poderia ser, já que ela deixou sua terra com o marido e os dois filhos para fugir de uma seca muito grande, ou seja, ela foi espantada pela fome, praticamente uma retirante. Lá no exílio seu marido morreu, os filhos se casaram e cerca de dez anos depois morreram eles também, o que a fez voltar em situação parecida com a que a fez sair. A diferença estava na família. Ela se sentia rica ao sair para o estrangeiro; estava faminta, mas e daí? Tinha marido e dois filhos!

Tá aí o que eu gostaria de ver neste mundo, pessoas que tivessem o olhar de Noemi; que se sentissem ricas tendo pessoas ao seu redor, e pobres na ausência delas. Que considerassem seu tesouro mais precioso não coisas – que se desfazem, mas uma família, gente, com suas carências, suas necessidades de atenção, de afeto e cuidado, com sua capacidade de fazer rir e também chorar.

Porque o olhar de Noemi é tão parecido com o do Criador!

24
mar

Meu celular quebrou?

Gelson de Almeida Jr.

Triste, mas muito profunda, a ilustração do idoso que levou seu celular para a assistência técnica. Lá chegando disse ao atendente que queria que seu celular fosse consertado porque não atendia nenhuma ligação de seus filhos. Dias depois, ao retornar, o idoso homem ouviu do atendente que seu celular estava em perfeitas condições de funcionamento, que não fora encontrada nenhuma avaria. Num misto de espanto e tristeza perguntou ao atendente:

– Então quer dizer que meus filhos não me ligam, será que não querem falar comigo?

Quando li essa ilustração pela primeira vez fiquei revoltado com a ingratidão daqueles filhos. Acredito que seu sentimento tenha sido parecido com o meu, meu objetivo, porém, não é fazer com que você reflita em sua relação com o pai terreno, mas em sua relação com o Pai eterno.

maos postasAo longo da História Ele tem se mostrado um Pai que se preocupa com Seus filhos, que os trata como se nunca tivessem errado e como se não existisse mais ninguém em todo o Universo. Ele nos ama de verdade e conosco se preocupa, Sua maior alegria é quando, em pensamento ou em oração, o procuramos, mas Sua maior tristeza é quando o deixamos de lado.

Se Ele tivesse um celular para falar com você como seria, Ele o atenderia várias vezes ao dia ou olharia para o mesmo diversas vezes, esperando, em vão, uma ligação?

Não espere Ele descobrir que Seu “celular” está em ordem e que não toca porque você não tem ligado. “Ligue” e fale com Ele agora mesmo, gaste tempo em aprofundar essa relação maravilhosa, Ele ficará feliz, mas quem sairá ganhando será você. Não existe nada melhor que o amor do Pai.

22
mar

Manifesto

Marco Aurélio Brasil

Nesses dias em que a incrível abundância de fatos estarrecedores se sucede em velocidade de cruzeiro, criando um estado de excitação constante, debater política parece ainda mais espinhoso do que normalmente já é, especialmente quando se é um desiludido assumido como é o meu caso.

Essa semana compartilhei (caí na besteira de) um trecho de um texto de uma autora não confessadamente simpática ao regime de esquerda. O texto dizia que não havia justificativa plausível para Lula, mas o trecho específico que compartilhei argumentava que se a indignação das massas que invadiram as ruas no último domingo fosse realmente contra a corrupção como um mal em si, haveria bonecos de todos os corruptos envolvidos no escândalo, e não apenas da presidente e seu sucessor. Claro que isso me obrigou a passar o resto do dia respondendo a comentários odiosos ou simplesmente contrários a esse ponto de vista. Eu compreendia perfeitamente porque só havia bonecos de Lula e Dilma, mas achei que seria um bom pretexto para enfocar a relativa passividade com que engolimos outros escândalos de corrupção.

bandeira_do_brasil_2Em 2002, discordando profundamente de certas atitudes e principalmente inércias de FHC, votei em Lula, cheio de esperança. Retirei completamente, contudo, meu apoio logo no primeiro ano de seu primeiro mandato, quando ele se despediu de Palocci, flagrado em um esquema de corrupção que envolvia prostitutas e a quebra do sigilo bancário de um caseiro de sítio, como se Palocci fosse um herói da resistência. No meu entendimento, o recado moral que ele dava à nação ali era mais desastroso do que qualquer desacerto na economia poderia ser. Não importava o quanto bem ele fizesse em qualquer campo de seu governo, aquele aspecto me parecia vital, especialmente de alguém que empunhara a bandeira da ética durante vinte anos. O que veio na esteira parece confirmar minha impressão.

Em O fiel e a pedra, o grande escritor pernambucano Osman Lins fala de outro caseiro, um homem rude incumbido de proteger uma propriedade que se torna alvo da ambição dos coronéis locais. Aquele homem tem tudo a perder, mas se mantém absolutamente fiel a sua missão. O curioso é que ninguém entende aquela atitude. Ele soa meio como louco. Parece que os latinos têm esse cinismo entranhado, essa falta de apego a valores absolutos, essa tendência a apoiar o que parece mais conveniente e a fazer pouco caso de certos deslizes dependendo de quem vêm. Àqueles que lhes soam simpáticos, todas as prerrogativas da lei, a começar pelo “in dubio pro reo”, aos demais, o oposto. Ou será que não usamos de desculpas tão esfarrapadas quanto os partidários do PT para justificar os desmandos de nossos queridinhos da política e vice versa?

Fico com Cyro dos Anjos: “e no entanto, é preciso lutar pelo advento de um tempo em que a virtude dirija os homens“. Fico com Jesus Cristo: “Seja, porém, seu falar sim, sim e não, não” (Mateus 5:37). Sem nenhum tom de cinza.

Meu singelo manifesto nesse momento de ebulição nacional é: vamos aprender a lição. Vamos usar essa indignação toda, por inteiro. Sem pragmatismo. E isso significa: mais do que enaltecer ideologias ou programas de governo, enalteçamos a integridade como um valor novo, como um valor supremo.

E que Deus tenha piedade deste país.

19
mar

Temperança seja o proceder

Temperança seja o procederUm conhecido palestrante fez a seguinte pergunta: quem pode de fato me ofender, tirar a minha paz, quando me dirige palavras destemperadas ou de baixo calão? A pergunta que eu deveria me fazer, afirma o palestrante: se trata da verdade ou de uma mentira? Se sou aquilo pelo que me chama, não me ofenderei. Se eu não sou, não devo me ofender. Não devo porque, como bem ensina o provérbio, “a ira do insensato se conhece no mesmo dia, mas o prudente encobre a afronta”.

Em que pesem as hipóteses reclamadas pelo palestrante serem simples, não explorando outras que de fato poderiam nos alcançar a honra, ou ainda a integridade física, ainda assim é preciso pensar no assunto sobre o ponto de vista da temperança, do domínio próprio e, sobretudo da negação do eu.

Se não sou um ladrão ou um homicida, não tenho que me preocupar com isso. Posso, eventualmente, processar a quem me dirige tais insultos, por me expor a uma situação em que minha reputação fique em xeque diante de quem não me conhece. No entanto, pergunto: isso mudaria o que sou? Isso consolidaria ainda mais quem sei que sou? Não, de forma alguma. Apenas satisfaria meu ego ofendido e nada mais além disso.

Saber quem somos e termos domínio sobre nós mesmos é o que nos faz manter a paz em nosso coração e em nossa mente. Quem somos afinal? Nós, chamados a igreja, somos o corpo em que o cabeça é Cristo. Quanta honra! Partindo dessa premissa, por que nos ofenderíamos, se sabemos de tudo que nos proporciona a paz?  “Venham sobre mim também as tuas misericórdias, ó Senhor, e a tua salvação segundo a tua palavra”. Segundo o salmista, esta deve ser a nossa resposta ao que nos afronta, pois confiamos em Deus.

Não há motivos para se ofender. Mesmo ao que não conhece a Deus. O homem que tem controle sobre sua vida, que sabe quem ele é de fato, não se mete em disputas egocêntricas. Aqui a preciosa lição do livro de provérbios: “A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira”. Ato contínuo, quando ao que se refere é a nossa crença, a lição de Paulo aos romanos, mencionando o livro dos salmos: “Sim, por amor de ti, somos mortos todo o dia; somos reputados como ovelhas para o matadouro”.

Imagine se Jesus tivesse respondido a cada uma das ofensas e blasfêmias que lhe dirigiram. Pedro escreveu em sua carta: “Não tornando mal por mal, ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo; sabendo que para isto fostes chamados, para que por herança alcanceis a bênção”.

Ainda em menção a Pedro, ele nos diz que devemos acrescentar à virtude o conhecimento, e a este o domínio próprio. Mas como alcançar o domínio próprio? Revestindo-nos de Cristo e vivendo pelo Espírito. Seja este o nosso proceder, sobretudo porque conhecemos a que Rei e a que Reino pertencemos, efetivamente.

Que a graça e a paz de Cristo estejam com todos.

Sadi – O peregrino da palavra

18
mar

O milho premiado

Gelson de Almeida Jr.

milhoGosto da ilustração do fazendeiro que por anos seguidos ganhava o prêmio de qualidade, no festival do milho de sua região, devido ao excelente milho produzido em sua fazenda. Certa feita um periódico resolveu fazer uma matéria acerca do assunto. Quando o repórter perguntou ao fazendeiro o segredo do seu sucesso ele disse que era porque dava suas melhores sementes aos vizinhos.

Intrigado o repórter o questionou qual a razão de assim proceder, já que eram seus concorrentes. O homem respondeu que era por causa do vento e continuou explicando: – O vento leva o pólen de um campo para o outro, se meus vizinhos cultivarem um milho inferior ao meu a polinização degradará a qualidade do meu milho. Se eu quero cultivar milho bom, preciso melhorar a qualidade do milho dos meus vizinhos.

Ao longo de nossa vida nos conectamos com toda a sorte de pessoas, mas é interessante notar que, quando algo dá errado, subimos em um pedestal de superioridade e sempre colocamos a culpa no outro. A culpa é sempre dele, nunca nossa. Mas a história desse fazendeiro mostra que poderemos ser muito mais felizes se agirmos de modo diferente, se dermos o melhor para os que nos cercam receberemos o melhor também.

A maioria de nós se esquece da Lei da Retribuição, lança ao vento sementes de amargura, tristeza, ódio, descontentamento e querem que em seu terreno floresça as “flores” mais lindas, as “plantas” mais saudáveis. Se quero o melhor em minha vida necessito dar o melhor aos que me cercam. Seja para o outro o que você quer que ele seja para você.

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